Dívida pública do Brasil atinge maior patamar desde 2021

Dívida pública do Brasil atinge maior patamar desde 2021
Banco Central divulga aumento preocupante na dívida pública bruta
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 31 de julho de 2024 4

Os dados divulgados pelo Banco Central (BC) revelam um cenário desfavorável para a economia brasileira, apesar das declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre comprometimento com a responsabilidade fiscal. Segundo o BC, a dívida pública bruta voltou a crescer, atingindo níveis alarmantes para países emergentes.

A dívida pública bruta passou de 76,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em maio para 77,8% do PIB em junho, o maior patamar desde novembro de 2021, totalizando R$ 8,691 trilhões em valores nominais. Este aumento representa um acréscimo de R$ 612,2 bilhões sobre o saldo de dezembro de 2023.

Especialistas apontam que este resultado é consequência do afrouxamento das regras fiscais e do aumento expressivo dos gastos governamentais, resultando em um rombo fiscal superior ao registrado durante a pandemia da covid-19, entre 2020 e 2021. A taxa da dívida pública bruta em relação ao PIB é um indicador crucial da capacidade de um país honrar seus compromissos financeiros. No Brasil, ela continua a crescer devido ao ritmo acelerado dos gastos do governo em comparação com a arrecadação, resultando em déficits fiscais.

Conforme projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), a média de endividamento público em economias emergentes e países da América Latina é de 69% e 68% do PIB, respectivamente. No entanto, os números brasileiros superam essas médias.

Rombo histórico e reações do mercado

Os dados do BC também mostram que a necessidade de financiamento do setor público consolidado, que inclui os governos federal e regionais e as estatais, foi deficitária em R$ 1,107,9 trilhão no acumulado de 12 meses até junho, equivalente a 9,92% do PIB. Este foi o maior déficit nominal da história, superando o rombo de janeiro de 2021, que foi de R$ 1,016 trilhão.

O economista-chefe da JF Trust Gestora de Recursos, Eduardo Velho, comentou que o aumento persistente da dívida pública bruta não é surpresa, dado o contínuo crescimento do rombo fiscal. Segundo ele, os gastos públicos estão crescendo a uma taxa superior ao crescimento real da economia. Além disso, a necessidade de manter um aperto monetário devido à inflação acima da meta central de 3% também impacta no custo da dívida pública.

As declarações do presidente Lula sobre não gastar mais do que o governo arrecada foram recebidas com ceticismo por analistas e especialistas em contas públicas, especialmente às vésperas de uma nova reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC. A especialista em contas públicas Selene Peres Nunes questionou as afirmações do presidente, sugerindo que elas não correspondem à realidade fiscal do país.

Comparações internacionais e expectativas

Enquanto o Brasil caminha para uma dívida pública bruta de 80% do PIB, o Paraguai recebeu recentemente um selo de bom pagador da agência de classificação de risco norte-americana Moody's, algo que o Brasil perdeu em 2015. A classificação da Moody's para o Paraguai subiu para Baa3, o primeiro nível de grau de investimento, colocando o país vizinho à frente do Brasil neste aspecto.

O Banco Central inicia hoje a quinta reunião do Copom com o dólar mais valorizado e um cenário fiscal desafiador. Analistas da XP Investimentos destacam a necessidade de um contingenciamento de despesas superiores ao anunciado, devido à frustração com algumas medidas de elevação de receitas e à aceleração dos gastos obrigatórios. A previsão é que o centro da meta fiscal seja alterado de déficit zero para saldo negativo de 0,5% do PIB. O consenso entre os analistas do mercado é de manutenção da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 10,5% ao ano, com a decisão esperada para ser unânime.

 

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