Governador de MT libera pecuária em área protegida do Pantanal, ameaçando bioma

Governador de MT libera pecuária em área protegida do Pantanal, ameaçando bioma
Mauro Mendes sanciona lei que permite criação de gado em áreas de proteção permanente, colocando em risco a conservação do Pantanal Mato-Grossense. Especialistas denunciam retrocesso ambiental e alertam para possível aumento de incêndios.
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 22 de setembro de 2024 2

 

O governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), sancionou na última quinta-feira (19) uma lei que autoriza a utilização de áreas de proteção permanente (APPs) para pecuária extensiva na Bacia do Alto Paraguai, região que integra o Pantanal Mato-Grossense. A medida, publicada no Diário Oficial do estado nesta sexta-feira (20), foi justificada como forma de "reduzir a biomassa vegetal combustível e, assim, mitigar os riscos de incêndios florestais".

A nova legislação permite a criação de gado em áreas de reserva legal da planície alagável, desde que sejam respeitados alguns critérios, como a proibição do plantio de gramíneas exóticas e a descaracterização da vegetação nativa. A proposta foi enviada pelo próprio Executivo estadual e aprovada pela Assembleia Legislativa.

A Bacia do Alto Paraguai, conhecida como "cabeceira do Pantanal", é uma das áreas mais sensíveis do bioma, segundo nota técnica emitida em julho por organizações ambientais. O documento alerta para a importância da região na preservação do regime hídrico do Pantanal e sua relevância para a conservação ambiental.

Em contrapartida, especialistas criticam a medida. Pedro Ivo Batista, educador ambiental e coautor da Carta da Terra no Brasil, classificou a lei como uma violação ao artigo 225 da Constituição, que assegura o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. "A situação do Pantanal já é crítica. Essa autorização coloca em risco a existência das cabeceiras do bioma", afirmou ao Congresso em Foco.

Débora Calheiros, pesquisadora da Embrapa Pantanal cedida ao Ministério Público Federal, também questionou a eficácia do uso de gado para controle da biomassa. "A quantidade de gado não é suficiente para reduzir a biomassa em uma escala que beneficie o bioma como um todo", explicou.

Outro ponto controverso da lei é a permissão para a instalação de empreendimentos de médio e alto impacto ambiental nas planícies alagadas, desde que submetidos a licenciamento ambiental. A pesquisadora alertou para a falta de critérios claros que definam esses impactos, o que pode fragilizar ainda mais a proteção ambiental da região.

O governo de Mato Grosso foi procurado pelo Congresso em Foco para comentar os fundamentos da sanção da lei e se tinha conhecimento da nota técnica emitida sobre o tema, mas até o momento não se pronunciou.

Denúncia de impacto ambiental

A sanção ocorre em meio a uma série de denúncias de flexibilização da legislação ambiental em Mato Grosso. Em agosto, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou que o Pantanal está em risco de desaparecer devido ao avanço de atividades econômicas e à falta de políticas de proteção efetivas.

A nova lei do governo Mauro Mendes se insere em um contexto de ações políticas que, segundo especialistas, enfraquecem a preservação ambiental em benefício do agronegócio. "Não podemos ficar à mercê do interesse econômico que prioriza o lucro em detrimento do meio ambiente", criticou Pedro Ivo Batista.

O Pantanal, que sofre com incêndios recorrentes e a expansão agropecuária, tem enfrentado um processo de degradação acelerado. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o bioma perdeu cerca de 15% de sua cobertura vegetal apenas nos últimos cinco anos. A aprovação da Lei nº 12.653/2024, que flexibiliza o uso de APPs, representa um retrocesso na proteção da maior área alagável do planeta.

Impacto ecológico

A bióloga Débora Calheiros destacou que a abertura de pastagem nas áreas de sub-bosque das APPs ameaça a regeneração das espécies arbóreas, fundamental para a manutenção do bioma. "O consumo da vegetação pelo gado mata a possibilidade de renovação das espécies, comprometendo o equilíbrio ecológico do Pantanal", afirmou.

O risco de incêndios, frequentemente atribuído ao manejo inadequado de pastagens, também preocupa os pesquisadores. Sem uma fiscalização rigorosa e critérios bem definidos para a utilização das APPs, há o temor de que a prática acabe exacerbando as queimadas na região, ao invés de mitigá-las.

Próximos passos

O Ministério Público Federal (MPF) e organizações ambientais já estudam medidas legais para contestar a lei. Em nota, o MPF afirmou que a autorização de atividades econômicas em áreas de preservação permanente fere o princípio constitucional da preservação ambiental, e que ações judiciais poderão ser movidas contra a legislação.

A sociedade civil e organizações ambientais continuam pressionando o governo estadual para reverter a medida e reforçar as políticas de proteção ao Pantanal, um dos biomas mais ricos e ameaçados do país.

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