Alta no petróleo após ataques ao Irã pode pressionar preço da gasolina no Brasil, alertam economistas

Alta no petróleo após ataques ao Irã pode pressionar preço da gasolina no Brasil, alertam economistas
Posto de combustível no Brasil, onde os preços do diesel mantêm estabilidade em outubro, segundo Edenred Ticket Log.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 23 de junho de 2025 3

Economistas projetam impacto em cadeia após bombardeios ao Irã; Tocantins pode sentir efeitos já nas próximas semanas

A ofensiva dos Estados Unidos contra instalações nucleares no Irã acendeu um novo alerta nos mercados globais de energia. Com o aumento da tensão no Golfo Pérsico, o preço do petróleo tipo Brent subiu 4,3% nesta segunda-feira (23), cotado a US$ 94,10, e analistas já preveem reflexos diretos sobre o preço da gasolina e do diesel no Brasil.

No Tocantins, onde o abastecimento depende majoritariamente do transporte rodoviário, o impacto tende a ser mais imediato. A expectativa é de que postos de combustíveis repassem o aumento ao consumidor final ao longo das próximas semanas, caso a cotação internacional se mantenha em alta.

Segundo o economista Vitor Silva, pesquisador na área de energia, a atual conjuntura internacional exige atenção redobrada do Brasil.

— A tensão no Oriente Médio tem impacto direto sobre a cotação do petróleo, e, embora o Brasil produza boa parte do que consome, a política de preços ainda acompanha o mercado internacional. Em regiões mais distantes dos polos de refino, como o Tocantins, o repasse tende a ser mais rápido — afirma o especialista.

Os bombardeios ordenados por Washington atingiram três complexos nucleares subterrâneos no Irã: Fordow, Natanz e Isfahan. A ação foi classificada pelo governo norte-americano como preventiva e estratégica. Em resposta, Teerã elevou seu nível de alerta militar e ameaçou bloquear o Estreito de Ormuz, ponto por onde passam cerca de 20% do petróleo comercializado no planeta.

A Petrobras informou, em nota, que monitora a situação e que “qualquer decisão sobre reajuste será tomada com base em critérios técnicos e de mercado”. Até o momento, a estatal não anunciou mudanças nos preços.

Distribuidoras que atuam no Tocantins já trabalham com projeções de aumento entre R$ 0,15 e R$ 0,30 por litro do diesel. A gasolina, que atualmente custa em média R$ 6,29 na capital Palmas, pode ultrapassar R$ 6,50 até o início de julho, dependendo da volatilidade do barril e do dólar.

Caminhoneiros ouvidos pela reportagem relatam preocupação com os custos crescentes. Alcides Tavares, que transporta cargas entre Gurupi e o Maranhão, diz que a rotina na estrada fica mais difícil a cada reajuste.

— O frete não acompanha o preço do diesel. Tem rota que já deixei de fazer. A gente fica no prejuízo — lamenta.

Motoristas de aplicativo também sentem os efeitos. Érica Borges, que trabalha em Palmas há quatro anos, afirma que reajustes sucessivos ameaçam a sustentabilidade da atividade.

— Se aumentar de novo, fica impossível rodar. O passageiro já reclama do valor. Mas a gente também precisa cobrir o custo — diz.

O governo federal convocou uma reunião emergencial entre os Ministérios da Fazenda, de Minas e Energia e da Casa Civil para avaliar medidas caso a escalada do conflito persista. Entre as possibilidades discutidas estão o uso de estoques reguladores da ANP e eventuais desonerações tributárias temporárias.

O Conselho de Segurança da ONU deve se reunir nesta terça-feira para tratar da situação. Até lá, o mercado segue atento aos desdobramentos e ao comportamento de Teerã diante das sanções e da ofensiva militar ocidental.

A tensão no Golfo Pérsico já provocou desvalorização de moedas emergentes e valorização do dólar e do ouro. No Brasil, o dólar comercial encerrou o dia cotado a R$ 5,54. Economistas alertam para o efeito em cadeia sobre a inflação e os preços de bens essenciais.

— Estamos diante de um cenário instável, que combina risco geopolítico, mercado nervoso e pressão inflacionária. O impacto será tanto nos combustíveis quanto nos alimentos e no frete, afetando diretamente a população — afirma Vitor Silva.

Notícias relacionadas