Prefeito de Palmas monitorava presença de equipes da PF e foi alertado sobre “16 homens” antes da 10ª fase da Operação Sisamnes
Diálogos interceptados pela Polícia Federal revelam que o prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos (Podemos), recebeu com antecedência informações detalhadas sobre a movimentação da PF na capital tocantinense às vésperas da 10ª fase da Operação Sisamnes. A ação, deflagrada no dia 27 de junho, investiga o vazamento sistemático de decisões sigilosas do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e resultou na prisão preventiva do prefeito, de um advogado e de um policial civil.
As mensagens revelam que o prefeito foi informado de que quatro equipes da PF haviam chegado a Palmas por via terrestre, totalizando 16 agentes. O conteúdo, considerado peça-chave da investigação, foi obtido com autorização judicial e indica o uso de uma rede paralela de inteligência para monitorar ações policiais e antecipar medidas judiciais.
Alerta detalhado e linguagem cifrada
Em um dos trechos mais emblemáticos da investigação, o interlocutor de Eduardo Siqueira envia a seguinte mensagem:
“Oi, chefe. Quatro equipes da PF chegaram hoje. Vindas de Brasília. Delegado, escrivão e dois agentes em cada. Chegaram por terra.”
“São 16 homens. Acho que algo pontual.”
A linguagem utilizada e o grau de precisão logística indicam, segundo os investigadores, que a rede de informantes possuía acesso direto a dados sigilosos da operação. Os envolvidos usavam linguagem cifrada e codinomes para se referirem a agentes públicos e órgãos federais, numa tentativa de driblar interceptações.
A estrutura da rede de vazamentos
A Polícia Federal identificou, até o momento, três nomes centrais no esquema:
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Eduardo Siqueira Campos, prefeito de Palmas, apontado como o articulador político da rede e destinatário final dos vazamentos.
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Antônio Ianowich Filho, advogado, interlocutor direto do prefeito e responsável por repassar informações oriundas de Brasília.
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Marco Augusto Velasco Albernaz, policial civil, suspeito de acessar indevidamente sistemas de inteligência para mapear ações da PF.
Há ainda a suspeita de envolvimento de servidores ligados ao STJ, que teriam colaborado para o vazamento de decisões judiciais protegidas por sigilo, pareceres da Procuradoria-Geral da República (PGR) e ordens de busca e apreensão.
Decisão do STF e fundamentos da prisão
A prisão preventiva foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que também determinou o afastamento imediato de Eduardo Siqueira do cargo e o bloqueio de seus passaportes. A decisão aponta “fortes indícios de organização criminosa voltada à obstrução de investigações e à comercialização de decisões judiciais”.
Zanin classificou a atuação do prefeito como “persistente e articulada”, destacando que Eduardo Siqueira usava sua posição para tentar frustrar ações da Polícia Federal em benefício próprio e de terceiros. O ministro também destacou a “gravidade concreta” dos fatos e o risco de continuidade delitiva.
Impacto institucional e político
A prisão de Eduardo Siqueira Campos representa um dos maiores abalos políticos no Tocantins desde a criação do estado. Filho do ex-governador e fundador do estado, Siqueira Campos, o atual prefeito de Palmas acumulava influência em diversos setores da política local.
Com a revelação do esquema de vazamentos, o caso ganha contornos nacionais e escancara a fragilidade dos sistemas de controle de informações sigilosas nos tribunais superiores. O impacto também é sentido no Judiciário, diante da suspeita de que ministros ou servidores próximos às cortes tenham colaborado com os vazamentos.
Próximos passos da investigação
A Polícia Federal e a PGR devem aprofundar a análise dos materiais apreendidos, incluindo celulares, computadores e backups dos investigados. O foco agora está em rastrear a cadeia completa de vazamentos e identificar possíveis conexões com outras esferas do poder.
A defesa de Eduardo Siqueira e dos demais presos ainda não se manifestou oficialmente, mas deve ingressar com pedidos de habeas corpus e questionar a legalidade das interceptações. Nos bastidores, aliados políticos do prefeito articulam uma ofensiva para tentar conter o desgaste à imagem da família Siqueira Campos.
As mensagens reveladas pela Polícia Federal, que informam antecipadamente a chegada de 16 agentes federais a Palmas, reforçam a tese de que havia uma estrutura clandestina de espionagem operando para proteger alvos de investigações sensíveis. O caso pode representar um divisor de águas na relação entre política e Justiça no Brasil, reacendendo o debate sobre o uso indevido de informações estratégicas por autoridades públicas.