Prefeito de Palmas monitorava presença de equipes da PF e foi alertado sobre “16 homens” antes da 10ª fase da Operação Sisamnes

Prefeito de Palmas monitorava presença de equipes da PF e foi alertado sobre “16 homens” antes da 10ª fase da Operação Sisamnes
Eduardo Siqueira Campos anuncia plano de ajuste fiscal para reverter crise financeira em Palmas.
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 30 de junho de 2025 5

Diálogos interceptados pela Polícia Federal revelam que o prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos (Podemos), recebeu com antecedência informações detalhadas sobre a movimentação da PF na capital tocantinense às vésperas da 10ª fase da Operação Sisamnes. A ação, deflagrada no dia 27 de junho, investiga o vazamento sistemático de decisões sigilosas do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e resultou na prisão preventiva do prefeito, de um advogado e de um policial civil.

As mensagens revelam que o prefeito foi informado de que quatro equipes da PF haviam chegado a Palmas por via terrestre, totalizando 16 agentes. O conteúdo, considerado peça-chave da investigação, foi obtido com autorização judicial e indica o uso de uma rede paralela de inteligência para monitorar ações policiais e antecipar medidas judiciais.

Alerta detalhado e linguagem cifrada

Em um dos trechos mais emblemáticos da investigação, o interlocutor de Eduardo Siqueira envia a seguinte mensagem:

“Oi, chefe. Quatro equipes da PF chegaram hoje. Vindas de Brasília. Delegado, escrivão e dois agentes em cada. Chegaram por terra.”
“São 16 homens. Acho que algo pontual.”

A linguagem utilizada e o grau de precisão logística indicam, segundo os investigadores, que a rede de informantes possuía acesso direto a dados sigilosos da operação. Os envolvidos usavam linguagem cifrada e codinomes para se referirem a agentes públicos e órgãos federais, numa tentativa de driblar interceptações.

A estrutura da rede de vazamentos

A Polícia Federal identificou, até o momento, três nomes centrais no esquema:

  • Eduardo Siqueira Campos, prefeito de Palmas, apontado como o articulador político da rede e destinatário final dos vazamentos.

  • Antônio Ianowich Filho, advogado, interlocutor direto do prefeito e responsável por repassar informações oriundas de Brasília.

  • Marco Augusto Velasco Albernaz, policial civil, suspeito de acessar indevidamente sistemas de inteligência para mapear ações da PF.

Há ainda a suspeita de envolvimento de servidores ligados ao STJ, que teriam colaborado para o vazamento de decisões judiciais protegidas por sigilo, pareceres da Procuradoria-Geral da República (PGR) e ordens de busca e apreensão.

Decisão do STF e fundamentos da prisão

A prisão preventiva foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que também determinou o afastamento imediato de Eduardo Siqueira do cargo e o bloqueio de seus passaportes. A decisão aponta “fortes indícios de organização criminosa voltada à obstrução de investigações e à comercialização de decisões judiciais”.

Zanin classificou a atuação do prefeito como “persistente e articulada”, destacando que Eduardo Siqueira usava sua posição para tentar frustrar ações da Polícia Federal em benefício próprio e de terceiros. O ministro também destacou a “gravidade concreta” dos fatos e o risco de continuidade delitiva.

Impacto institucional e político

A prisão de Eduardo Siqueira Campos representa um dos maiores abalos políticos no Tocantins desde a criação do estado. Filho do ex-governador e fundador do estado, Siqueira Campos, o atual prefeito de Palmas acumulava influência em diversos setores da política local.

Com a revelação do esquema de vazamentos, o caso ganha contornos nacionais e escancara a fragilidade dos sistemas de controle de informações sigilosas nos tribunais superiores. O impacto também é sentido no Judiciário, diante da suspeita de que ministros ou servidores próximos às cortes tenham colaborado com os vazamentos.

Próximos passos da investigação

A Polícia Federal e a PGR devem aprofundar a análise dos materiais apreendidos, incluindo celulares, computadores e backups dos investigados. O foco agora está em rastrear a cadeia completa de vazamentos e identificar possíveis conexões com outras esferas do poder.

A defesa de Eduardo Siqueira e dos demais presos ainda não se manifestou oficialmente, mas deve ingressar com pedidos de habeas corpus e questionar a legalidade das interceptações. Nos bastidores, aliados políticos do prefeito articulam uma ofensiva para tentar conter o desgaste à imagem da família Siqueira Campos.

As mensagens reveladas pela Polícia Federal, que informam antecipadamente a chegada de 16 agentes federais a Palmas, reforçam a tese de que havia uma estrutura clandestina de espionagem operando para proteger alvos de investigações sensíveis. O caso pode representar um divisor de águas na relação entre política e Justiça no Brasil, reacendendo o debate sobre o uso indevido de informações estratégicas por autoridades públicas.

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