Mercado em alerta: Focus projeta inflação em queda e bolsas mundiais oscilam diante de incertezas econômicas
Relatório do Banco Central indica leve melhora nos indicadores para 2025, mas cenário externo instável pressiona mercados e impõe cautela ao segundo semestre
O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (8) pelo Banco Central trouxe revisões discretas nas projeções econômicas, reforçando a percepção de desaceleração inflacionária e crescimento moderado no Brasil. Ao mesmo tempo, os principais índices de bolsas de valores globais oscilaram ao longo do dia, refletindo tensões geopolíticas, expectativa sobre juros nos Estados Unidos e instabilidade cambial em economias emergentes.
No Brasil, o relatório indica que a projeção para o IPCA de 2025 caiu de 5,20% para 5,18%, a segunda queda consecutiva. A Selic deve permanecer em 15% até o fim do ano, enquanto a estimativa para o PIB foi ligeiramente ajustada de 2,21% para 2,23%. Já o câmbio segue estável, com o dólar projetado em R$ 5,65.
Para 2026, os economistas do mercado financeiro ainda projetam inflação acima da meta: o IPCA foi mantido em 4,20%, e a expectativa é de que os juros comecem a cair apenas no segundo semestre, dependendo da consistência no controle de preços.
“O mercado está mais confiante em relação à inflação, mas ainda vê risco elevado no campo fiscal e incerteza sobre as políticas monetárias globais. Isso mantém a Selic elevada por mais tempo, o que freia o consumo e o crédito”, analisa o economista Carlos Bonfim, da FGV.
Bolsas globais reagem com volatilidade ao cenário econômico e geopolítico
Nesta segunda-feira, os principais mercados mundiais fecharam em direções opostas:
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Ibovespa (Brasil): encerrou em leve queda de 0,34%, aos 123.420 pontos, pressionado por realização de lucros e recuo nas ações do setor financeiro.
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Dow Jones e Nasdaq (EUA): ambos operaram em campo positivo, com o Nasdaq subindo 0,68% puxado por ações de tecnologia, após relatório de emprego abaixo do esperado reforçar a expectativa de corte de juros pelo Federal Reserve ainda este ano.
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FTSE 100 (Reino Unido): fechou em queda de 0,45% diante da valorização da libra e cautela com os primeiros anúncios do novo governo britânico.
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DAX (Alemanha): recuou 0,27%, influenciado por preocupações com a desaceleração industrial e guerra prolongada no leste europeu.
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Nikkei (Japão): encerrou em alta de 0,56%, beneficiado por ganhos em exportadoras e balanços corporativos positivos.
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Shanghai Composite (China): caiu 0,42%, com investidores avaliando os efeitos de novas restrições ao setor imobiliário chinês e baixa demanda doméstica.
Impactos no Tocantins: crédito restrito e alerta para o setor agropecuário
A persistência da Selic em 15% segue impactando diretamente o acesso ao crédito em todo o país, inclusive no Tocantins. Segundo o economista Vitor Peixoto, da Câmara de Dirigentes Lojistas de Palmas, o comércio deve enfrentar um segundo semestre marcado por cautela no consumo, sobretudo em setores como móveis, eletrodomésticos e materiais de construção.
No setor agropecuário, os efeitos dos juros altos atingem tanto pequenos quanto grandes produtores. “O custo para investimento e custeio segue elevado. Apesar da estabilidade do câmbio, a margem do produtor está muito apertada, o que dificulta novas contratações de crédito rural”, afirma Peixoto.
Já no mercado imobiliário, o cenário se mantém estagnado. “Com juros altos, poucas famílias conseguem financiamento para a casa própria. A demanda existe, mas o custo trava o setor”, complementa.
O preço dos combustíveis, por sua vez, deve manter relativa estabilidade nas próximas semanas, acompanhando a cotação do petróleo no mercado internacional e a recente valorização do real frente ao dólar.
Cenário global impacta diretamente o bolso do brasileiro
Mesmo em cidades pequenas, como as do interior do Tocantins, as variações da economia internacional têm reflexos diretos. O custo do transporte, da energia e dos alimentos está ligado ao comportamento global do petróleo, do dólar e das commodities agrícolas. Ao mesmo tempo, o ritmo da economia dos EUA e da China influencia o volume de exportações e o nível de confiança do investidor.
“É um momento que exige planejamento. A inflação dá sinais de queda, mas a taxa de juros elevada continua travando o crescimento. A perspectiva de alívio no segundo semestre depende muito do comportamento fiscal do governo e da conjuntura internacional”, conclui o economista da FGV.