Nova ofensiva russa agrava conflito na Ucrânia e leva ONU a convocar reunião emergencial em Genebra
Com apoio de drones iranianos e avanço territorial no leste ucraniano, ofensiva eleva o número de refugiados e intensifica a tensão com OTAN, BRICS e países do Báltico
GENEBRA e KIEV — A escalada da ofensiva militar russa no leste da Ucrânia provocou uma reação imediata da comunidade internacional nesta segunda-feira (8), com a convocação de uma reunião emergencial pela Organização das Nações Unidas (ONU), marcada para esta terça-feira, em Genebra. O avanço de tropas russas em direção às províncias de Kharkiv e Donetsk, com apoio tático de drones fornecidos pelo Irã e articulação de forças aliadas no campo, acentuou a crise humanitária e ampliou os deslocamentos internos e transfronteiriços da população civil.
Segundo dados atualizados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), mais de 120 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas apenas nas últimas três semanas, diante da intensificação dos ataques aéreos e da destruição de infraestruturas essenciais como hospitais, escolas e estações de energia.
Ofensiva coordenada: drones, artilharia e avanço terrestre
Analistas militares ouvidos por agências como Reuters e Al Jazeera apontam que a nova fase da guerra tem sido marcada por um uso extensivo de drones kamikaze de fabricação iraniana Shahed-136, em ataques noturnos e coordenados com bombardeios de artilharia pesada. As cidades de Kupiansk e Avdiivka, já severamente danificadas desde 2022, voltaram a figurar entre os alvos prioritários da campanha russa, que tenta consolidar uma zona de controle entre a fronteira russa e o centro industrial do Donbass.
O general aposentado Andrii Kolomiets, analista do Instituto Ucraniano de Estudos Estratégicos, avalia que “a estratégia atual do Kremlin visa desgastar a capacidade de resposta ucraniana e forçar um reposicionamento defensivo que abra caminho para negociações com termos impostos por Moscou”. Ele acrescenta que há “indícios claros de apoio logístico iraniano, inclusive na reposição de equipamentos de guerra eletrônica”.
ONU, OTAN e BRICS reagem à escalada
O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou os acontecimentos recentes como “alarmantes” e reafirmou que a guerra já atingiu “níveis inaceitáveis de sofrimento civil e destruição”. A sessão extraordinária do Conselho de Direitos Humanos em Genebra terá como pauta central a violação de tratados internacionais e a necessidade de um cessar-fogo imediato.
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), por sua vez, alertou que “ações provocativas no leste da Europa, especialmente contra os Estados Bálticos, não serão toleradas”. A Estônia, a Letônia e a Lituânia, todas vizinhas à Rússia, têm reforçado suas fronteiras e acionado sistemas de defesa aérea em resposta ao que classificam como “movimentações hostis nas zonas de exclusão”.
Países-membros do BRICS também acompanharam com preocupação os desdobramentos da ofensiva. A China e a Índia, que tradicionalmente mantêm postura mais reservada, emitiram notas cobrando “contenção mútua” e reafirmaram apoio a uma solução diplomática. Já a África do Sul e o Brasil reforçaram a importância do multilateralismo, com o Itamaraty defendendo, mais uma vez, que a paz só será possível “com garantias mútuas de soberania e segurança”.
Igrejas do mundo lançam apelo por cessar-fogo imediato
Em resposta ao agravamento da crise, líderes religiosos de diferentes tradições cristãs lançaram neste fim de semana uma campanha interdenominacional pela paz. O Vaticano, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia, o Conselho Mundial de Igrejas e entidades evangélicas de diversos países emitiram um apelo conjunto pedindo o fim imediato dos ataques e conclamando os fiéis a jejuar e orar pela paz no Leste Europeu.
No Brasil, igrejas católicas e evangélicas do Tocantins aderiram ao movimento. Em Palmas, o bispo diocesano Dom Antônio Marinho afirmou, durante a homilia de domingo, que “a dor do povo ucraniano deve ser também nossa dor”. Já o pastor Silas Lima, de Araguaína, propôs uma corrente de oração diária até o fim de julho. “A fé é nosso recurso espiritual contra a destruição. Que o clamor do mundo toque os corações endurecidos pela guerra”, disse.
A campanha ganhou força nas redes sociais com a hashtag #OremosPorUcrânia, que figurou entre os assuntos mais comentados no Brasil na manhã desta segunda-feira.
Putin volta a ameaçar OTAN e rompe clima de moderação
Durante pronunciamento transmitido pela TV estatal russa no domingo (7), o presidente Vladimir Putin voltou a atacar diretamente a OTAN e mencionou a possibilidade de uso de “armas de dissuasão tática” caso o Ocidente avance sobre “zonas de interesse estratégico da Federação Russa”. A fala foi interpretada por analistas internacionais como uma ameaça velada ao uso de armas nucleares de baixa intensidade, elevando o nível de alerta nos bastidores diplomáticos da União Europeia e dos Estados Unidos.
Especialistas ouvidos pela BBC e pela Deutsche Welle comparam a atual retórica do Kremlin ao auge da Guerra Fria. “A nova doutrina de segurança russa considera legítima a defesa prévia, mesmo contra alianças multilaterais, o que representa um risco direto à estabilidade do sistema internacional”, avalia a cientista política russa exilada Natalia Vlasenko.
Brasil mantém neutralidade estratégica, mas reforça apelos por paz
O governo brasileiro reiterou sua posição de neutralidade estratégica no conflito. Em nota divulgada nesta manhã, o Itamaraty afirmou que o Brasil “mantém sua disposição de mediar o diálogo entre as partes, com base na Carta das Nações Unidas e no direito internacional humanitário”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já havia criticado a falta de protagonismo diplomático global para conter a guerra, afirmou em entrevista que “a paz não será alcançada com armas, mas com disposição de diálogo entre as lideranças do mundo”.
A diplomacia brasileira tem atuado no âmbito do BRICS para conter a polarização, mas evita alinhamento automático a qualquer das partes. Segundo o professor de Relações Internacionais da USP, Maurício Cantanhede, o Brasil “faz um movimento calculado: não endossa a ofensiva russa, mas também não adere às sanções ocidentais. A ideia é manter espaços abertos para uma futura negociação”.