Carlos Velozo rompe silêncio e marca território: “Não podemos ter paixões maiores do que o compromisso com Palmas”

Carlos Velozo rompe silêncio e marca território: “Não podemos ter paixões maiores do que o compromisso com Palmas”
Crédito: Reprodução/ Instagram- Sandra Miranda
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 10 de julho de 2025 3

Prefeito interino fala ao Jornal Opção Tocantins sobre autonomia na gestão, pressões políticas, vínculos familiares e os gargalos em saúde e educação

Na manhã de 9 de julho, o prefeito interino de Palmas, Carlos Eduardo Velozo (Agir), recebeu a equipe do Jornal Opção Tocantins poucas horas após sair de um velório. A cena foi emblemática: calado, comedido, mas firme. No comando da capital há pouco mais de uma semana, após o afastamento judicial de Eduardo Siqueira Campos (Podemos), ele decidiu falar. E deixou claro que pretende governar com independência, sem se submeter a paixões partidárias, vínculos pessoais ou pressões institucionais. “Tudo que for bom para Palmas será feito”, disse.

Velozo revelou que sua entrada na chapa com Eduardo Siqueira nasceu de um gesto simbólico: o pedido de perdão feito pelo então prefeito ao pastor Amarildo Martins, seu tio e líder da Assembleia de Deus Madureira. “Não sei os motivos, mas aquilo foi o início do diálogo”, contou. A aliança entre Podemos e Agir foi costurada em março de 2024, com a promessa de autonomia e participação direta na estrutura administrativa.

Hoje, além de prefeito interino, Velozo preside o Agir no Tocantins e tenta se firmar como figura de equilíbrio em um cenário polarizado. “A gestão não é espaço para devaneios políticos. É para decisão. E quem responde por cada decisão sou eu”, cravou.

Religião, Monte Sião e bastidores familiares: “Ouço tudo, retenho o que é bom”

Ao ser questionado sobre a influência do grupo religioso Monte Sião, frequentemente associado ao pastor Amarildo e à estrutura da Prefeitura, Velozo foi direto: “Não tenho relação com a empresa Monte Sião. Meu tio me aconselha, sim, mas as decisões são minhas”. Ele citou a advogada Dalide Corrêa — presidente nacional do Agir Mulher e tia da nova procuradora-geral do município — como exemplo de associação indevida: “Ela foi escolhida pela competência técnica da sobrinha, não por relações familiares”.

Sobre o deputado federal Filipe Martins (PL-TO), seu primo e filho de Amarildo, o prefeito foi ainda mais seco: “Admiro, mas não temos proximidade. Não falamos nem por celular.”

Corte necessário: a queda de Carlos Júnior

Uma das primeiras medidas de Velozo foi a exoneração do ex-chefe de gabinete Carlos Júnior, figura central na gestão de Eduardo Siqueira. A decisão, segundo ele, não teve motivação pessoal, mas institucional. “Era alguém da casa do prefeito, próximo da família. Mas pedidos simples de informação não avançavam. Interpretei como um abalo emocional. E troquei.”

Velozo afirma que não hesitará em tomar novas decisões difíceis. “Não posso governar com base em afetos. São 320 mil pessoas impactadas por cada decisão.”

Reorganização da gestão: secretários para servir à cidade, não ao prefeito

O interino diz ter enfrentado resistência de setores acostumados à lógica da indicação política. Reforçou que secretários não foram escolhidos para representar grupos, mas para entregar resultado. “Sou grato aos que me ajudaram a chegar aqui, mas o compromisso agora é com a cidade, não com acordos. Ou a gestão funciona, ou muda.”

Câmara Municipal: pressão, articulação e tempo

Sobre o relacionamento com os vereadores, Carlos admite tensões. “Há cobranças por emendas e espaço na gestão. Isso é legítimo, mas é preciso tempo.” Ele destaca que manteve Walter Viana (PRD) na liderança do governo na Câmara, e que conversará com todos os parlamentares, independentemente de alianças anteriores.

E sobre o possível impeachment de Eduardo Siqueira? “Na Câmara não se fala disso. Na rua, sim. Já escutei. Mas impeachment é ato político com base jurídica. E eu não sou jurista.”

Governar além das bandeiras: “Palmas não pertence a uma ideologia”

Carlos Velozo tenta se descolar da narrativa de uma gestão conservadora tutelada por pastores e familiares. “Palmas é de todos. Não me importa o partido, a bandeira ou a igreja. O que importa é se o projeto melhora a cidade.” A fala marca um reposicionamento simbólico — e pragmático — em meio à crise de legitimidade da atual gestão.

Orçamento travado e SUS inchado: os desafios em saúde e educação

Velozo detalhou os gargalos orçamentários mais críticos de sua gestão. Na educação, dos R$ 750 milhões previstos, cerca de R$ 600 milhões vão para folha de pagamento. Na saúde, a distorção é ainda maior: “Temos 320 mil habitantes, mas quase meio milhão de cartões do SUS. Isso desequilibra o sistema.”

Entre as metas, estão o fim das filas de cirurgias como catarata e vasectomia, ampliação do atendimento nas UBSs e o início da construção de um hospital e uma maternidade na região sul de Palmas.

Visita ao TCE: “Fui pedir ajuda”

Logo após assumir o cargo, Velozo visitou o conselheiro Wagner Prachetes, do Tribunal de Contas do Estado, para buscar apoio técnico. “Disse a ele que quero fazer tudo dentro da legalidade. Me colocou à disposição a equipe técnica do Tribunal. E eu vou ouvir.”

Legado e permanência: “Se ficar um mês ou um mandato, quero deixar marca”

Ao final da entrevista, Carlos Velozo foi convidado a responder sobre o legado que deseja deixar. A resposta foi objetiva, mas carrega um tom emocional: “Quero ser lembrado por cuidar da educação, da saúde e da inovação. Palmas não é feita só de prédios e avenidas. É feita de gente. E é para essa gente que estou aqui.”

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