Editorial: Quem ganha com a taxação do Brasil?

Editorial: Quem ganha com a taxação do Brasil?
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 10 de julho de 2025 1

A imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros por parte do ex-presidente americano Donald Trump não é uma decisão voltada à economia, tampouco ao equilíbrio das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Trata-se, antes, de uma jogada política com alvos internos e objetivos eleitorais, em que o Brasil foi usado como instrumento em uma guerra de narrativas.

Ao enviar uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva com exigências incomuns — como sanções ao Supremo Tribunal Federal, bloqueio de vistos de ministros e críticas à regulação de plataformas digitais — Trump ultrapassou os limites tradicionais da diplomacia e desrespeitou abertamente a soberania de um país democrático. No entanto, o gesto não deve ser interpretado apenas como uma afronta bilateral. É uma peça de propaganda direcionada ao eleitorado trumpista, que vê no STF brasileiro e em Alexandre de Moraes símbolos do que combate: controle institucional, combate à desinformação e regulação do discurso digital.

Trump ganha com o gesto. Reforça sua imagem de líder em guerra contra os sistemas judiciais que considera “opressores”, mesmo quando se trata do Judiciário de outro país. Reativa uma base que vibra com embates e sanções unilaterais. Também atende a setores protecionistas nos Estados Unidos — em especial produtores agrícolas que há tempos se ressentem da competitividade do agronegócio brasileiro. A tarifa elevada sobre produtos brasileiros, como suco de laranja e carne, soa como um agrado oportuno a esses grupos.

Mas Trump não é o único a lucrar. No Brasil, a extrema-direita enxergou na carta um reforço simbólico às suas teses. Parlamentares ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro correram para celebrar a iniciativa como um “alerta” ao STF, sugerindo que o Brasil está sob “ditadura togada” e que agora haveria apoio externo contra isso. Trata-se de uma leitura distorcida e perigosa. Ao romantizar uma interferência estrangeira nas instituições nacionais, esse grupo revela sua disposição de instrumentalizar até mesmo ações hostis para promover sua própria agenda.

Enquanto isso, quem perde é o Brasil real: produtores, exportadores e trabalhadores que dependem de um comércio internacional estável e previsível. A elevação tarifária pode provocar perdas imediatas em setores estratégicos, inviabilizar contratos, gerar desemprego e reduzir a competitividade brasileira num dos mercados mais relevantes do mundo. E mais grave: abala a credibilidade do Brasil como parceiro confiável, justo quando o país tenta ampliar seu protagonismo em fóruns internacionais.

O governo Lula respondeu com cautela, o que foi acertado diante da provocação. Mas é preciso que a resposta institucional vá além da formalidade. O Brasil não pode aceitar que seu Judiciário seja ameaçado por pressões externas, nem permitir que sua diplomacia se transforme em refém de campanhas eleitorais alheias. Também é necessário deixar claro à população quem de fato se beneficia desse episódio: não são os brasileiros. O gesto de Trump serve apenas a interesses pessoais e de grupos específicos nos EUA e no Brasil — todos distantes das necessidades concretas do país.

Em tempos de polarização e uso político da diplomacia, o Brasil precisa reafirmar seus princípios, suas instituições e sua soberania. Não para confrontar, mas para proteger. Para defender o que é essencial: o interesse nacional. Porque, diante de tantas bravatas e ameaças, o verdadeiro prejuízo é sempre de quem não tem voz em cartas ou redes sociais — o cidadão comum, que trabalha, produz e paga o preço do populismo internacional.

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