EDITORIAL | O mundo em transição: Brasil entre a OTAN, a Rússia e os BRICS

EDITORIAL | O mundo em transição: Brasil entre a OTAN, a Rússia e os BRICS
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Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 12 de julho de 2025 2

O mundo atravessa uma fase de reconfiguração geopolítica, marcada por movimentos simultâneos e interligados. Nesta semana, dois episódios distintos, mas profundamente simbólicos, deixaram isso evidente. De um lado, o sobrevoo de um avião militar russo em território finlandês reacendeu a tensão no Leste Europeu. De outro, a 17ª Cúpula do BRICS, realizada no Brasil, expôs o avanço das articulações dos países emergentes por uma nova ordem financeira global.

O incidente com a Rússia, que violou o espaço aéreo da Finlândia, não foi apenas mais uma provocação entre forças militares rivais. Trata-se de uma ação que pressiona diretamente a OTAN e reforça o ambiente de insegurança na região do Báltico. Desde a entrada formal da Finlândia na aliança atlântica, o Kremlin tem intensificado manobras aéreas próximas às fronteiras, testando os limites da paciência ocidental. A resposta rápida dos caças e a convocação diplomática foram esperadas, mas o fato de esses episódios se repetirem com frequência crescente acende o alerta sobre o risco de incidentes involuntários escalarem para conflitos abertos.

No mesmo período em que aviões eram interceptados no céu europeu, o Brasil sediava a mais ambiciosa reunião dos BRICS em anos. O grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – agora ampliado com países como Irã, Egito e Etiópia – demonstrou unidade no discurso contra o domínio ocidental sobre instituições financeiras internacionais. A proposta de reforçar os pagamentos em moedas locais e reduzir a dependência do dólar esteve no centro dos debates. Embora a criação de uma moeda única ainda esteja distante, o bloco avança com clareza em direção a alternativas estruturadas, como o BRICS Pay, desafiando o modelo financeiro vigente desde o pós-guerra.

O Brasil, na condição de anfitrião, adotou sua tradicional postura diplomática equilibrada. O presidente Lula defendeu um mundo multipolar, a reforma de instituições multilaterais e o protagonismo dos países do Sul Global. Ao mesmo tempo, evitou alinhamentos explícitos contra os Estados Unidos e manteve canais abertos com a Europa. Essa estratégia de moderação tem raízes históricas na política externa brasileira, mas também carrega riscos. Em um cenário cada vez mais polarizado, a hesitação pode ser confundida com omissão, e o desejo de agradar a todos pode minar o poder de liderança.

A reação norte-americana à cúpula não tardou. O ex-presidente Donald Trump, em tom agressivo, ameaçou impor tarifas de até 100% a países que avancem no processo de desdolarização. A retórica, embora eleitoral, ecoa em setores do governo dos EUA e revela uma disposição crescente de utilizar a política comercial como instrumento de contenção geopolítica. Esse tipo de ameaça tende a gerar instabilidade, não apenas diplomática, mas também econômica. Mercados emergentes ficam vulneráveis à fuga de capitais e à oscilação cambial quando confrontados com imprevisibilidade vinda de Washington.

A realidade atual é a de uma disputa por influência que não se limita ao campo militar. Ela se expressa no comércio, na moeda, nos fóruns multilaterais e até na definição dos padrões tecnológicos e regulatórios do futuro. Não há mais espaço para uma visão binária de mundo. A disputa é difusa, multilateral e assimétrica. Não se trata de uma nova Guerra Fria nos moldes clássicos, mas de uma tensão permanente entre um Ocidente em busca de preservar sua hegemonia e um bloco emergente que reivindica voz e espaço.

Cabe ao Brasil encontrar seu lugar nesse cenário. A ambição de atuar como mediador global exige mais do que presença institucional. Exige clareza de projeto, coerência estratégica e capacidade de articulação real. O país tem tradição diplomática, peso econômico e legitimidade histórica para desempenhar esse papel. Mas precisa assumir com firmeza que a neutralidade, por si só, não é mais suficiente. Em tempos de transição, quem não define caminhos corre o risco de ser empurrado por interesses alheios. A hora é de decisão, não de hesitação.

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