Eduardo Bolsonaro intensifica ataques à democracia brasileira a partir dos EUA, e pressiona por sanções internacionais

Eduardo Bolsonaro intensifica ataques à democracia brasileira a partir dos EUA, e pressiona por sanções internacionais
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 19 de julho de 2025 3

Atuação do deputado inclui lobby contra ministros do STF e articulação com Trump; Flávio e Carlos reforçam ofensiva bolsonarista por dentro

A permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos tem deixado de ser apenas um gesto político e assumido contornos jurídicos preocupantes. Segundo investigações da Polícia Federal e documentos do inquérito das milícias digitais no Supremo Tribunal Federal (STF), o deputado federal tem atuado diretamente para deslegitimar as instituições brasileiras junto ao governo norte-americano — em especial, ao núcleo aliado de Donald Trump.

O ponto mais grave é a tentativa de convencimento de lideranças norte-americanas para que imponham sanções contra autoridades do Judiciário brasileiro, como o ministro Alexandre de Moraes. Em pronunciamentos recentes, Eduardo declarou que os EUA precisam “responder” ao que chama de “abuso de poder no Brasil”. Para juristas, a movimentação pode configurar crimes como atentado ao Estado Democrático de Direito (artigo 359-L do Código Penal), coação no curso do processo (art. 344) e até traição diplomática.

Tentativa de subordinar o STF a interesses estrangeiros

A ofensiva internacional foi descrita pelo ministro Alexandre de Moraes como uma tentativa explícita de submeter o funcionamento do Supremo Tribunal Federal à influência de outro Estado. “Trata-se de um movimento sem precedentes e profundamente perigoso. Nenhum parlamentar tem autorização legal para representar interesses nacionais em solo estrangeiro de forma paralela à diplomacia oficial”, disse um ex-ministro do Itamaraty ouvido por O Globo, sob reserva.

Em meio às pressões, o ex-presidente Donald Trump anunciou, neste mês, um pacote de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, alegando “preocupações com a liberdade de expressão e a perseguição política contra Bolsonaro”. Eduardo celebrou a decisão em suas redes sociais, sugerindo que “finalmente os EUA entenderam o que está acontecendo no Brasil”.

PGR vê indícios de organização criminosa com atuação transnacional

A Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitou ao STF novas medidas contra Eduardo Bolsonaro, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e proibição de contato com autoridades estrangeiras. A avaliação é de que o deputado pode estar atuando como elo diplomático informal em nome do pai, Jair Bolsonaro, investigado por tentativa de golpe e articulações ilegais após a derrota eleitoral em 2022.

A PF também analisa se houve tentativa de utilizar a influência de Trump para desestabilizar o processo democrático brasileiro — o que, se confirmado, configuraria grave violação à soberania nacional.

O papel de Flávio e Carlos nos bastidores da crise

Embora Eduardo concentre os esforços internacionais, Flávio Bolsonaro aparece como articulador interno de apoio político e jurídico. Segundo apuração da CBN, o senador tem mantido contato com advogados conservadores norte-americanos, além de lideranças religiosas e parlamentares que compõem a base bolsonarista no exterior.

Carlos Bolsonaro, por sua vez, segue no Brasil como responsável pelo núcleo de comunicação digital do grupo, segundo aponta a investigação da CPMI do 8 de Janeiro. Relatórios da Polícia Legislativa apontam que o chamado “gabinete do ódio” voltou a atuar em 2025 com produção de vídeos, memes e conteúdos direcionados contra ministros do STF e o presidente Lula, utilizando inclusive estruturas públicas de gabinetes parlamentares.

Um projeto político em três frentes

Especialistas em Direito Constitucional ouvidos por O Globo descrevem o movimento da família Bolsonaro como “uma reedição de guerra híbrida”, utilizando táticas de desinformação, lobby internacional e mobilização política simultaneamente.

— É um projeto coordenado que combina deslegitimação institucional no Brasil com uma tentativa de internacionalização do conflito, colocando o Judiciário como alvo de pressão estrangeira. Isso não é liberdade de expressão; é sabotagem legal e diplomática — avalia a jurista Eloísa Machado, professora da FGV Direito-SP.

O caso pode evoluir para pedido de prisão preventiva caso se demonstre, com evidências mais robustas, que as articulações nos Estados Unidos visavam de fato influenciar decisões de Estado no Brasil por meio de coerção externa.

Caminho da responsabilização

A expectativa no STF é de que novas medidas cautelares sejam discutidas ainda neste semestre. Há ministros que defendem a abertura de um processo específico por crime de lesa-pátria, uma tipificação rara, mas juridicamente aplicável, diante das evidências levantadas pela Polícia Federal e pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Enquanto isso, o clã Bolsonaro intensifica sua atuação política e midiática, fortalecendo uma narrativa de perseguição institucional que ecoa os métodos do trumpismo. O Brasil, por sua vez, enfrenta o desafio de responder a essa ameaça com o rigor da lei — e com a firmeza das instituições democráticas.

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