Editorial: O retorno de Eduardo Siqueira e os 20 dias que abalaram Palmas

Editorial: O retorno de Eduardo Siqueira e os 20 dias que abalaram Palmas
Eduardo Siqueira Campos se reúne com lideranças e anuncia equipe de governo para iniciar mandato como prefeito de Palmas em 2025.
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 19 de julho de 2025 2

A revogação do afastamento do prefeito Eduardo Siqueira Campos, determinada pelo Superior Tribunal de Justiça, encerrou um dos episódios mais ruidosos e emblemáticos da política recente de Palmas. Mas o que se seguiu à sua volta foi ainda mais revelador. Em apenas vinte dias de interinidade, a cidade assistiu, com nitidez incomum, à exposição crua das engrenagens do poder — suas vaidades, lealdades condicionais e ambições ocultas.

Mais do que um breve hiato administrativo, a ausência temporária de Eduardo funcionou como um verdadeiro teste de estresse. Testou sua base, sua gestão e, sobretudo, a fidelidade dos seus aliados mais próximos. O que se viu foi uma movimentação precoce — e, em muitos casos, desleal — de rearranjos internos, exonerações, nomeações e tentativas de reconfiguração do governo como se a cadeira principal já estivesse definitivamente vaga. A política local revelou seu instinto mais primitivo: o da sobrevivência a qualquer custo.

É importante destacar que o objetivo dessa movimentação não era apenas ocupar espaço. O que se pretendia — e isso ficou evidente nos bastidores — era enfraquecer Eduardo Siqueira Campos em três frentes: política, institucional e emocional. O ataque mirava o prefeito, o homem e o indivíduo. Mais do que desalojá-lo do cargo, tentou-se abalar sua confiança, sua saúde e sua resistência — justamente ele, que vinha de um processo duro e vitorioso de reconstrução pessoal e política.

A trajetória recente de Eduardo é conhecida. Após um longo período de ostracismo e descrédito, poucos apostavam em sua viabilidade eleitoral. Mas, contrariando as expectativas, ele reconstruiu sua campanha com disciplina e entrega. Acordava às cinco da manhã, começava a trabalhar às seis e encerrava o expediente apenas na madrugada. Fez, na última eleição, o que nunca havia feito com tamanha intensidade em sua vida pública. E venceu — com voto, suor e história.

Foi no meio desse processo de superação que Eduardo sofreu um infarto. Literalmente, um ataque ao coração de seu projeto de vida. Ainda assim, não recuou. Seguiu em frente e venceu. Por isso, os últimos acontecimentos não podem ser lidos apenas como uma crise institucional. Foram, de fato, um ataque à sua recuperação simbólica e física. Uma tentativa de tirá-lo do jogo — e do eixo.

O retorno, contudo, não se deu de forma espontânea. Foi necessário um movimento de bastidores, articulado com discrição e precisão política por duas figuras centrais: a senadora Kátia Abreu e o senador Eduardo Gomes. Ambos atuaram para reverter o afastamento, não apenas em defesa de um aliado, mas como força de contenção diante do risco de desordem institucional. E a resposta veio. Eduardo voltou.

Mas quem reassume o comando da capital não é mais o mesmo homem. É alguém que agora sabe exatamente quem é quem. Alguém que viu garras saírem das sombras da própria estrutura de governo nos dias em que esteve ausente. E que volta, como diz o antigo jingle de seu pai — que ele mesmo passou a usar — “com todo o gás”.

Devem-se esperar mudanças. E mudanças profundas. Porque Eduardo retorna com outro olhar, outra disposição e, sobretudo, outra leitura do tabuleiro. Palmas deve se preparar para um novo ciclo. Não mais de acomodação, mas de reação.

Nesse cenário, uma figura manteve-se intacta — e, em certo sentido, engrandecida: a primeira-dama, Pollyana Siqueira. Em meio à crise, às tensões e aos ensaios de traição, seu nome jamais foi associado a qualquer atitude oportunista. Ao contrário, Pollyana emergiu como símbolo de dignidade e serenidade. Palmas tem, hoje, uma primeira-dama que se destaca — e Eduardo precisa reconhecer e proteger esse ativo. Institucional e humano.

Paralelamente ao embate pelo retorno de Eduardo, outra preocupação ganhou força nos bastidores: o avanço de uma lógica eclesiástica sobre o poder político da capital. A interinidade do vice-prefeito e pastor Carlos Velozo acendeu um sinal de alerta em diversas alas da política local. Mesmo no breve período em que esteve no comando, sua presença despertou inquietação transversal — unindo, em oposição silenciosa, nomes de diferentes campos ideológicos.

O temor não estava apenas na figura de Velozo, mas no que ele simboliza: a possibilidade de consolidação de um governo orientado por vínculos religiosos e familiares, com diretrizes mais confessionais do que administrativas. A relação direta entre Amarildo — ex-deputado federal e também pastor — e Carlos Velozo gerou desconforto adicional. Para muitos, tratava-se de uma tentativa de transformar a prefeitura em extensão de uma estrutura eclesial.

“Ninguém queria tanto poder nas mãos de uma só corrente”, disse, em reserva, uma liderança do centro político da capital. E o temor se agravou com a lembrança do histórico de Amarildo, cujo nome foi envolvido no escândalo do desvio de verbas da saúde, especificamente em contratos de ambulâncias. O episódio, ainda vivo na memória política da cidade, foi citado como um dos principais temores em articulações de bastidor. A combinação entre passado nebuloso e protagonismo religioso gerou o que muitos chamaram de “alerta institucional”.

Esse cenário em Palmas espelha um debate nacional: o avanço das igrejas pentecostais sobre a política institucional. Em Brasília, a chamada “banda da Bíblia” exerce influência robusta sobre votações, articulações e cargos de poder. Trata-se de um bloco coeso, disciplinado e com alto poder de mobilização — sobretudo em contextos eleitorais.

Mas em Palmas, há resistência. A cidade, cuja identidade política foi moldada em torno de um pacto institucional laico, reagiu à ideia de fusão entre púlpito e gabinete. A interinidade de Velozo, ainda que breve, acendeu um alerta: até onde pode ir a fé — e onde ela deve parar quando se trata de governar?

Palmas assistiu a tudo. E compreendeu. Com olhos atentos, entendeu o valor da vigilância democrática e da estabilidade institucional. Viu Eduardo cair. E viu Eduardo levantar. E quando um líder retorna, depois de saber quem realmente esteve ao seu lado, é natural que as estruturas também mudem.

Porque, como os vinte dias demonstraram, o maior inimigo raramente está do outro lado da rua. Está, muitas vezes, na própria sombra.

E Palmas não esquecerá disso.

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