Guerra Fria versão 2.0? Rússia e China avançam na África após golpe no Níger

Guerra Fria versão 2.0? Rússia e China avançam na África após golpe no Níger
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 19 de julho de 2025 2

Interesses em urânio, petróleo e presença militar intensificam nova disputa de influência em solo africano; especialistas apontam realinhamento geopolítico global

O golpe militar no Níger, em julho de 2023, não apenas desmontou uma das últimas alianças pró-Ocidente da região do Sahel como também acentuou uma corrida estratégica por influência na África. Dois anos depois, a presença da Rússia e da China no continente é mais robusta do que nunca, reconfigurando o tabuleiro geopolítico e gerando alertas de que o mundo pode estar diante de uma nova Guerra Fria — agora travada por contratos de mineração, infraestrutura e presença militar.

Analistas da Universidade de Brasília (UnB) e da Fundação Getulio Vargas (FGV) ouvidos por O Globo apontam que a movimentação simultânea de Moscou e Pequim não é isolada, mas sim parte de uma ofensiva coordenada, com objetivos distintos, mas complementares: a Rússia mira a projeção de poder militar e acesso direto a recursos estratégicos, enquanto a China aposta na diplomacia econômica e nos megaprojetos de infraestrutura.

“O que vemos no Sahel é uma ruptura com o eixo tradicional França-EUA e o surgimento de um novo bloco de poder. Níger, Malí e Burkina Faso estão sob influência direta de Moscou, enquanto Sudão, Etiópia, Angola e África do Sul seguem orbitando o investimento chinês”, resume o cientista político Paulo Marcelo Silva, pesquisador da FGV.

Minério, petróleo e influência

O Níger possui uma das maiores reservas de urânio do mundo. O material, essencial para a produção de energia nuclear e armamentos, abastecia usinas na França e no Canadá. Após o golpe de 2023, o fornecimento foi interrompido. Em troca de apoio militar e logístico à junta nigerina, a Rússia passou a negociar diretamente o acesso ao minério, redirecionando contratos para estatais russas ligadas ao setor nuclear.

O movimento se repete em Burkina Faso, onde jazidas de ouro e lítio também passaram a ser exploradas sob vigilância militar russa. A presença do grupo Wagner foi substituída por tropas regulares ligadas ao Ministério da Defesa da Rússia, sob a estrutura do chamado “Corpo Africano”. Em Malí, a Rússia mantém presença militar e logística, com voos e armamentos chegando semanalmente a Bamako.

Já a China atua em outra frente. Desde 2015, o país asiático já investiu mais de US$ 200 bilhões em obras de infraestrutura em solo africano. Ferrovias, portos, estradas e usinas hidrelétricas integram o ambicioso projeto de expansão econômica da Nova Rota da Seda. Somente em 2024, foram anunciados US$ 14 bilhões em novos contratos com países do leste africano, incluindo concessões em Angola e Moçambique.

Golpes e realinhamento político

De 2020 a 2023, seis golpes de Estado foram registrados na África Ocidental. Segundo relatório do Instituto de Estudos de Segurança (ISS Africa), esses episódios coincidem com a retração da presença ocidental e a ascensão de narrativas anti-imperialistas capitaneadas por Moscou e Pequim.

O caso do Níger foi emblemático: o país era um dos principais parceiros militares dos EUA na região. Após o golpe, militares ordenaram a retirada de tropas norte-americanas e encerraram acordos com a França. Pouco depois, iniciou-se um processo acelerado de alinhamento com a Rússia, com envio de equipamentos militares, alimentos e combustível.

“Essa guinada africana reflete não apenas interesses econômicos, mas uma estratégia de médio prazo de Moscou e Pequim para ocupar os espaços deixados pelo Ocidente”, afirma Maria Eugênia Lacerda, professora de geopolítica da UnB.

E o Brasil?

O avanço russo-chinês na África também impõe desafios à diplomacia brasileira. Tradicionalmente próximo de países como Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, o Brasil vê suas parcerias históricas ofuscadas por projetos de maior envergadura financiados pela China.

De acordo com o Itamaraty, os acordos de cooperação com países africanos somaram cerca de US$ 850 milhões em 2024 — valor abaixo dos mais de US$ 2,7 bilhões em investimentos chineses no mesmo período. Há ainda preocupação com o impacto dessa nova geopolítica sobre organismos multilaterais, como o BRICS, onde Rússia, China e Brasil dividem a mesa de decisões.

Para especialistas, o Brasil precisa reconfigurar sua política externa para manter relevância na África. “O país tem vantagens competitivas em áreas como saúde, educação e energias renováveis, mas precisa agir rápido. O vácuo político já está sendo preenchido por potências que atuam com pragmatismo”, diz Lacerda.

Nova Guerra Fria?

Embora sem o viés ideológico que marcou o embate entre EUA e URSS no século 20, a atual disputa por influência na África carrega os mesmos ingredientes geopolíticos: alianças militares, projetos de infraestrutura, retórica antiocidental e o uso de recursos naturais como ativos estratégicos.

De um lado, os EUA e a União Europeia tentam reagir com novos pacotes de ajuda, mas enfrentam resistência das elites militares locais. Do outro, Rússia e China moldam uma narrativa de soberania e multipolaridade, conquistando terreno não apenas com armas ou dinheiro, mas com a promessa de um novo modelo de relação Sul-Sul.

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