Varejo alimentar cresce 5,8% no 1º semestre impulsionado por alta nos preços, apesar da queda nas vendas

Varejo alimentar cresce 5,8% no 1º semestre impulsionado por alta nos preços, apesar da queda nas vendas
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 19 de julho de 2025 5

Especialista Leandro Rosadas aponta que famílias endividadas priorizam itens básicos, enquanto o frio derruba vendas de supérfluos

O setor de varejo alimentar encerrou o primeiro semestre de 2025 com um crescimento de 5,8% no faturamento, mesmo diante de um cenário de retração nas vendas em volume e fluxo de consumidores. O dado consta no estudo Radar Scanntech, divulgado na última semana, que também aponta aumento de 7,3% no preço médio por unidade como principal fator para o resultado positivo.

De acordo com o levantamento, o volume de produtos vendidos caiu 1,4% no semestre, em linha com a retração de 0,4% no fluxo de consumidores nas lojas. Ainda assim, o faturamento subiu puxado pela valorização dos alimentos, especialmente os itens da mercearia básica, que tiveram alta de 12,3%, e os produtos perecíveis, com elevação de 7,4%.

Para Leandro Rosadas, economista e especialista em gestão de supermercados, o resultado é consequência direta do comportamento de consumo das famílias em meio ao cenário de inflação setorial, renda apertada e priorização de itens essenciais.

“O crescimento do faturamento foi impulsionado pela elevação dos preços médios por unidade, principalmente entre os itens de mercearia básica. Alimentos perecíveis também tiveram papel importante nesse desempenho. Já produtos sazonais e supérfluos, mais caros e sensíveis ao clima, vêm sofrendo retração”, explica Rosadas.

Frio afeta consumo de sorvete, iogurte e bebidas

Entre os itens com maiores quedas em volume estão o sorvete (-23,6%), polpa de fruta (-16,2%) e iogurte (-7%). Segundo o especialista, o inverno mais rigoroso em diversas regiões do país influenciou diretamente o consumo desses produtos. “As temperaturas amenas inibem a compra de alimentos mais refrescantes. Isso tem impacto direto no mix de venda mensal, como vemos em junho.”

A pesquisa aponta ainda que o segundo trimestre foi o pior da série histórica para bebidas alcoólicas, com queda de 5,3% nas unidades vendidas. Destaque negativo para cerveja (-16,1%), sucos (-16,3%) e bebidas vegetais (-41,1%), que figuram entre os produtos mais impactados pela mudança de hábito no período.

Junho teve retração de 4,3% nas vendas

Somente no mês de junho, o setor registrou queda de 4,3% nas vendas — índice considerado expressivo. Segundo Leandro Rosadas, o número revela mais do que um reflexo climático: trata-se de um retrato do consumo real das famílias brasileiras.

“Mesmo com baixa taxa de desemprego e crescimento dos trabalhos informais, o endividamento alto impede que muitas famílias consumam além do básico. Arroz, feijão e itens essenciais continuam no carrinho. Já os produtos com tíquete médio mais elevado estão sendo deixados de lado”, afirma o especialista.

Queda é mais intensa em estados do Norte e Sul

Dados do Índice do Varejo Stone (IVS) reforçam a sensibilidade do setor à renda. O grupo que engloba hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo apresentou retração de 3,4% no acumulado do ano. O recuo foi mais acentuado no Rio Grande do Sul (-14%), Amazonas (-7%), Mato Grosso do Sul (-6,5%) e Rio Grande do Norte (-6,1%).

Segundo Rosadas, a regionalização do impacto reforça a correlação direta entre renda disponível e comportamento de consumo no varejo alimentar. “Onde a renda está mais pressionada, a queda em volume e faturamento tende a ser mais severa.”

Notícias relacionadas