Preta Gil foi maior. E nós é que demoramos a entender
Ela apanhou sozinha para que outras mulheres pudessem caminhar com mais paz. E mesmo assim, nunca recuou. Preta Gil virou coragem.
Preta Gil não foi apenas cantora. Nem só filha de Gilberto Gil. Nem simplesmente uma artista. Preta foi o grito antes do aplauso. A porrada antes da palma.Ela foi a coragem de existir — como mulher, como gorda, como preta, como livre.
E não era fácil. Nunca foi.
Eu sou uma mulher branca. Não vivi o que ela viveu. Mas como mulher, como jornalista, como alguém que observa o mundo com escuta e respeito, sei o quanto Preta Gil foi linchada para que outras pudessem existir com um pouco mais de leveza.
Ela apanhou sozinha muitas vezes.
Foi chamada de tudo que o machismo, o racismo e a gordofobia sabem inventar.
Foi acusada de ser vulgar quando só estava sendo feliz.Foi taxada de escandalosa por usar roupas que outras mulheres magras usam todos os dias.
E mesmo assim, ela ficou.
Ela não foi embora.
Ela ocupou.
Preta fez do seu corpo um território político. Fez do seu bloco um carnaval de afetos, de liberdade, de resistência. Ela falava por quem nunca foi representada na TV, nos palcos, nas revistas, nos camarotes. Falava pelas mulheres nordestinas, pelas mães solo, pelas filhas esquecidas, pelas artistas boicotadas, pelas pessoas que amam sem pedir desculpas.
Ela não era só presença. Ela era enfrentamento.
Quando recebeu o diagnóstico de câncer, Preta escancarou o que tantas escondem: a dor, o medo, a solidão. Ainda assim, apareceu. De lenço, de alma, de verdade. Porque ser Preta Gil era isso: não ter medo de ser — mesmo quando o mundo inteiro mandava calar.
Hoje, o Brasil amanhece menor. Mas nós, mulheres, amanhecemos com a responsabilidade de continuar. De reconhecer. De não esquecer.
Preta Gil foi grande.
E quem não percebeu isso em vida, que agora ao menos tenha a decência de se calar e aprender.
Ela nos mostrou que o que o mundo tenta transformar em vergonha pode, sim, ser orgulho.Que um corpo é mais do que aparência — é instrumento.
Que uma mulher preta, gorda e autêntica pode ser protagonista.
E foi.
Obrigada, Preta.
Por apanhar por todas nós.
Por sorrir quando doía.
Por ser inteira, incômoda, insubstituível.
Você virou coragem.
Você virou história.
Você virou todas nós.
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Fernanda Cappellesso
Jornalista, mulher, testemunha e admiradora de quem transforma dor em presença.