Em Palmas, cesta básica recua, mas carne, leite e pão seguem pressionando orçamento de quem vive com um salário mínimo

Em Palmas, cesta básica recua, mas carne, leite e pão seguem pressionando orçamento de quem vive com um salário mínimo
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 22 de julho de 2025 4

Mesmo com queda de 1,92% no último levantamento, alimentos básicos ainda consomem mais da metade do salário de milhares de tocantinenses. Famílias relatam dificuldade para manter proteína na mesa e priorizam itens de enchimento.

O custo da cesta básica em Palmas recuou 1,92% no último levantamento do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), encerrando um ciclo de quatro meses consecutivos de alta. O alívio, no entanto, tem pouco impacto prático no dia a dia de famílias que vivem com até um salário mínimo: os alimentos essenciais ainda comprometem mais de 54% da renda líquida do trabalhador, restringindo o acesso a proteínas e encurtando o cardápio.

Com valor médio de R$ 765,80, a cesta da capital tocantinense caiu principalmente devido à redução no preço do arroz (-4,6%), do tomate (-7,2%) e do óleo de soja (-3,1%). No entanto, itens com maior peso no orçamento, como carne bovina, leite e pão francês, continuam com preços elevados — ou em curva ascendente — e seguem puxando o custo final.

O que ainda encarece a mesa

Segundo o Dieese, a carne bovina, que representa até 20% do valor total da cesta, teve alta de 1,2% em Palmas no último mês. Já o leite longa vida subiu 0,9%, influenciado pela entressafra e pelo aumento nos custos de transporte. O pão francês, por sua vez, teve variação positiva de 0,6%, pressionado pela alta acumulada da farinha de trigo e da energia.

Esses três itens — carne, leite e pão — formam a base alimentar de muitas famílias e são também os mais difíceis de substituir. “Quando esses produtos aumentam, o impacto é direto e imediato no prato do trabalhador”, explica a economista de consumo popular Eliana Farias. “São produtos de rotina, culturalmente arraigados, e que exigem substituições que nem sempre são nutricionalmente equivalentes.”

“A gente compra mais arroz e macarrão, carne só no fim de semana”

É o que sente na prática a diarista Rosa Batista, 45 anos, moradora da região sul de Palmas. Com três filhos e um salário mínimo como renda fixa, Rosa relata que a família abandonou a carne bovina no dia a dia.

“Hoje, só entra carne vermelha aqui no domingo, e mesmo assim comprando pedaço menor. No resto da semana é arroz, ovo, macarrão. Às vezes salsicha. A gente sente falta, mas o dinheiro não dá”, conta.

Já o vendedor ambulante Carlos Henrique Silva, 28, recorre a promoções em supermercados para tentar manter o leite na rotina da filha pequena, de 4 anos. Mesmo assim, precisou cortar o café da manhã próprio para priorizar a criança. “Eu como depois que volto da rua. De manhã só dou o leite pra ela. Um litro custa quase R$ 5, não dá pra todo mundo.”

O que mais pesa, segundo ele, é o pão: “o pão francês subiu muito. Já está quase R$ 15 o quilo. A gente troca por bolacha água e sal, que é mais barata e dura mais”.

Jornada maior, mesa menor

De acordo com o levantamento do Dieese, um trabalhador de Palmas que ganha um salário mínimo (R$ 1.518 bruto, R$ 1.398,72 líquido) precisa cumprir 117 horas e 6 minutos de jornada apenas para adquirir os alimentos da cesta básica — considerando uma jornada diária de 8 horas, são quase 15 dias úteis do mês dedicados unicamente à alimentação essencial.

A assistente de serviços gerais Marileide Costa, 36, que trabalha em um escritório na região central, conta que o impacto da inflação é sentido mais nas compras de feira do que nos boletos. “O aluguel ainda consigo segurar, mas o mercado virou um terror. Até a banana subiu. A gente vai trocando as coisas. O feijão agora virou luxo.”

No último mês, a banana registrou queda em Palmas (-2,1%), mas no acumulado do ano ainda está com alta de 5,3%. O feijão carioquinha, por sua vez, apresentou estabilidade no mês, mas subiu 4,8% no acumulado de 2025.

Substituições drásticas e dieta empobrecida

Para o aposentado Sebastião Andrade, 68, morador do Aureny I, a saída foi recorrer à farinha de mandioca como substituto ao arroz e ao feijão. “Eu cozinho um pouco de farinha com sal e como com ovo. Carne eu não compro mais. Nem frango. Tá tudo caro. O corpo vai acostumando.”

Nutricionistas alertam que esse tipo de substituição, apesar de comum, empobrece a dieta e pode gerar deficiências de proteínas e vitaminas no médio prazo. “A longo prazo, isso afeta o sistema imunológico, agrava quadros de diabetes, hipertensão e prejudica crianças em fase escolar”, destaca a técnica em saúde pública Andréia Martins.

Salário mínimo ideal ainda está distante

Considerando a cesta mais cara do país (São Paulo, R$ 896,15), o Dieese calcula que o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 7.528,56 — quase cinco vezes o valor atual.

Mesmo em Palmas, com uma cesta mais barata, o salário mínimo ideal calculado pela reportagem seria de ao menos R$ 6.200,00, somando alimentação, moradia, transporte, saúde e educação.

“Esses números são fundamentais para mostrar que o alívio pontual nos preços não resolve a base da desigualdade. Se a renda não acompanha a inflação da comida, o trabalhador está sempre devendo para o mês”, pontua a socióloga Adriana Lima.

Acumulado do ano segue em alta

Apesar da queda em junho, o acumulado da cesta básica em Palmas segue em alta: +5,4% no ano e +7,8% em 12 meses. O arroz subiu 14% no ano, o leite 10,3% e o pão 6,9%. Apenas o óleo de soja (-2,5%) e a banana (-1,1%) registram recuo no acumulado.

Resumo

  • Valor da cesta em Palmas: R$ 765,80

  • Queda no mês: -1,92%

  • Produtos que puxam o custo: carne (+1,2%), leite (+0,9%), pão francês (+0,6%)

  • Comprometimento da renda: 54,7% do salário mínimo líquido

  • Horas de trabalho necessárias: 117 horas/mês

  • Acumulado do ano: +5,4%

  • Salário mínimo ideal (Palmas): R$ 6.200,00

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