Palmas precisa de um salário mínimo de R$ 6.200 para garantir padrão digno de vida, aponta levantamento com base no custo da cesta básica
Cálculo proporcional ao levantamento do Dieese revela defasagem estrutural entre o piso nacional e o custo real de vida na capital do Tocantins. Especialistas alertam para quadro de insegurança alimentar crônica, empobrecimento da dieta e risco de exclusão social.
O salário mínimo necessário para garantir o sustento básico de uma família de quatro pessoas em Palmas deveria ser de R$ 6.200, segundo estimativa proporcional ao custo da cesta básica na capital tocantinense, divulgada com base nos critérios metodológicos do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). O valor supera em mais de quatro vezes o atual piso nacional, fixado em R$ 1.518, e expõe o descompasso entre o poder de compra da população e o custo real da sobrevivência em uma das cidades que mais crescem na Região Norte.
Apesar de a cesta básica local ter apresentado recuo de 1,92% no último mês, passando a custar R$ 765,80, o alívio pontual nos preços não se converteu em melhora no cotidiano das famílias. A alimentação básica ainda consome 54,7% do salário líquido do trabalhador que recebe o piso nacional, o que equivale a 117 horas e 6 minutos de jornada mensal — ou seja, mais de 14 dias de trabalho apenas para garantir comida na mesa.
Carne, leite e pão seguem como os vilões do orçamento
O recuo no valor da cesta foi puxado por quedas no arroz, tomate e óleo de soja. Entretanto, os produtos com maior peso e menor substituição continuam em trajetória de alta. A carne bovina subiu 1,2%, o leite longa vida, 0,9%, e o pão francês, 0,6%. Juntos, esses três itens representam mais de 40% do custo total da cesta.
Para a economista e pesquisadora em políticas públicas Jussara Lobo, a situação de Palmas é um retrato do que ocorre nas regiões de transição entre o Norte e o Centro-Oeste: custo logístico elevado, oferta limitada de hortifrútis e dependência de cadeias externas de abastecimento.
“Palmas tem crescimento urbano, mas ainda vive o dilema de abastecimento regional. O arroz vem do Sul, a carne é exportada para fora, o leite depende de uma indústria concentrada. Isso eleva o preço final ao consumidor e comprime o poder de compra”, afirma.
Trabalhadores abandonam a carne, frutas somem do prato
Em bairros como Taquari, Aureny I e Santo Amaro, a defasagem do salário mínimo é visível nas escolhas alimentares. O pedreiro Valdecir Dias, 51 anos, conta que deixou de consumir carne há dois meses. “A gente vai no mercado e sai com duas sacolas por R$ 150. Não dá. Agora é arroz, farinha e ovo. Fruta virou lembrança”, diz.
A diarista Rosa Batista, mãe de três filhos, confirma a tendência: “Compro leite para as crianças e o resto a gente improvisa. Deixo o almoço dos adultos para mais tarde para ver se aguentamos com uma refeição só.”
Esses relatos preocupam profissionais da saúde. Segundo a nutricionista clínica Letícia Rezende, a substituição forçada de proteínas e frutas por carboidratos baratos configura uma forma crônica de subnutrição.
“É a chamada fome disfarçada. Não é a ausência total de alimentos, mas a ausência de nutrientes. A longo prazo, isso causa anemia, fadiga, perda de concentração e aumento do risco de doenças metabólicas. Crianças são as mais afetadas.”
Valor ideal é referência técnica, não utopia, dizem especialistas
O valor de R$ 6.200 foi calculado com base na metodologia do Dieese, que mensalmente divulga o salário mínimo ideal com base na cesta mais cara do país (São Paulo, atualmente em R$ 896,15). Proporcionalmente, considerando o custo de vida de Palmas, o valor projetado para a capital do Tocantins considera alimentação, moradia, transporte, educação, vestuário, saúde e lazer — todos em valores compatíveis com padrões mínimos de dignidade.
Para o sociólogo e consultor legislativo Carlos Henrique Batista, o dado técnico precisa ser compreendido como norte para políticas públicas, e não como proposta imediata de reajuste.
“O número serve para dimensionar a distância entre o que se ganha e o que se precisa para viver com dignidade. Ele é pedagógico. Mostra que a atual política de valorização do salário mínimo está defasada frente à inflação real das famílias pobres.”
Dieta básica exige 14 dias de trabalho por mês
O levantamento mostra que o tempo de trabalho necessário para adquirir os alimentos da cesta básica em Palmas é de 117 horas e 6 minutos por mês. Isso significa que o trabalhador gasta 14 dias úteis, considerando uma jornada de 8 horas diárias, só para comprar comida. Com o restante, precisa pagar energia, água, gás, transporte, aluguel e outros itens essenciais.
Para o economista Adriano Sales, o dado comprova a perda contínua do poder de compra.
“Mesmo com deflação pontual nos alimentos, o custo de vida sobe em outras áreas. O gás de cozinha passou de R$ 130. A energia elétrica teve alta. Se o trabalhador compromete mais da metade do que ganha só com comida, ele está tecnicamente fora da linha de dignidade.”
Debate sobre salário mínimo regionalizado volta à pauta
Com a pressão inflacionária nos estados do Norte e Centro-Oeste, cresce a discussão sobre a criação de salários mínimos regionalizados ou complementos estaduais em formato de vale-alimentação. A proposta já tramita no Congresso e tem apoio parcial de frentes parlamentares da agricultura familiar, da economia solidária e de combate à fome.
No Tocantins, entidades como o Conselho Estadual de Segurança Alimentar (Consea-TO) articulam com deputados a implementação de um programa estadual de compensação de renda, vinculado ao custo da cesta básica apurada pelo Dieese.
Principais números
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Custo da cesta básica em Palmas: R$ 765,80
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Salário mínimo líquido atual: R$ 1.398,72
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Comprometimento da renda com alimentação: 54,7%
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Horas de trabalho necessárias/mês: 117h06
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Salário mínimo ideal estimado para Palmas: R$ 6.200
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Produtos que mais pressionam: carne bovina, leite longa vida, pão francês
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Acumulado de alta em 2025: +5,4%
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Alta em 12 meses: +7,8%
A estimativa de R$ 6.200 como salário mínimo ideal em Palmas não é retórica — é um alerta técnico que revela a falência prática da atual política de proteção da renda básica no país. A cesta pode oscilar mês a mês, mas os números mostram que o custo de viver em Palmas já ultrapassou, há muito, o limite do razoável para quem depende do salário mínimo. E o prato vazio é só o sintoma mais visível dessa equação.
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