Crise velada se torna pública: carta aberta de Amastha expõe tensão com Eduardo Siqueira e ameaça racha na gestão de Palmas
A aliança que ajudou a eleger Eduardo Siqueira Campos (podemos ) prefeito de Palmas pode estar à beira de um colapso. Em carta aberta publicada em tom institucional, mas carregada de recados políticos, o ex-prefeito e atual vereador Carlos Amastha (PSB) expôs de forma inédita os desgastes internos na administração municipal. Em 13 publicações sequenciais no Instagram, ele denunciou a falta de estrutura na Secretaria de Zeladoria Urbana — pasta que comanda interinamente — e insinuou que a permanência no cargo depende de mudanças concretas por parte do prefeito.
Sem citar nomes, Amastha criticou o clima de “boatos”, “intrigas” e “suspeitas inflamadas” que, segundo ele, contaminam o debate político na capital. Relembrou o apoio de seu grupo à eleição de Siqueira e sinalizou que, se o compromisso de gestão não for honrado, colocará seu cargo à disposição.
“Considero a possibilidade de colocar meu cargo à disposição de Vossa Excelência e retornar ao meu posto de vereador eleito”, afirmou.
Da convergência à frustração: o pano de fundo da crise
A carta marca o ápice de um mal-estar que vinha sendo gestado desde o início do ano. Após as eleições municipais, o apoio político de Amastha ao prefeito foi interpretado como um gesto de reaproximação entre dois ex-adversários históricos. A pasta da Zeladoria Urbana — símbolo da gestão compartilhada e vitrine de resultados práticos — foi oferecida a Amastha como sinal de confiança.
Nos bastidores, no entanto, aliados do vereador relatam que a secretaria nunca recebeu as condições operacionais prometidas. A insatisfação teria se agravado diante de uma suposta resistência interna à presença de Amastha no governo, alimentada por setores ligados ao núcleo político mais próximo de Eduardo Siqueira.
“Não é possível deixá-la parar”, escreveu o ex-prefeito, referindo-se à secretaria. “Segui trabalhando com afinco, fiscalizando, cobrando fornecedores e tentando garantir o mínimo de dignidade aos serviços essenciais.”
Referências históricas e crítica velada ao isolamento do prefeito
Um dos trechos mais simbólicos da carta recorre à História como alegoria do presente. Amastha cita Napoleão Bonaparte, alertando para os riscos de um líder cercar-se apenas de quem lhe diz o que quer ouvir.
“Sua queda começou não nos campos de batalha, mas nas decisões tomadas em salas fechadas, influenciadas por bajuladores e pelo orgulho.”
O recado, embora sutil, é direto: o prefeito estaria sendo mal assessorado, isolado das críticas e refém de um entorno político tóxico. A mensagem encontra eco em outras passagens, em que o vereador aponta que os aliados mais próximos “criam cercas, constroem muros e inflamam suspeitas”.
Zeladoria como metáfora política
Mais do que uma crítica administrativa, a carta posiciona a Zeladoria Urbana como símbolo da disputa interna por protagonismo. Ao afirmar que a pasta “é a vitrine da cidade” e que foi criada como “gesto de lucidez administrativa”, Amastha reforça que seu compromisso não é apenas funcional, mas político.
“Desde o início do processo eleitoral, um dos grandes motivos que me levaram a apoiá-lo […] foi exatamente o seu sonho de uma Zeladoria Urbana forte, estruturada e protagonista na gestão da cidade.”
Na leitura de interlocutores, o uso da Zeladoria como tema central da carta escancara o incômodo de Amastha com o esvaziamento simbólico e técnico da função que lhe foi conferida. Internamente, a percepção é de que ele foi alçado à posição para consolidar o discurso de unidade política — mas não para governar de fato.
Racha à vista? Silêncio de Eduardo aumenta especulações
A carta, embora não declare rompimento, lança dúvidas sobre a continuidade da aliança. Amastha afirma que “nunca houve intenção de conspiração”, mas cobra publicamente o cumprimento das condições prometidas. O silêncio do prefeito até o momento reforça a leitura de crise.
Na prática, a carta pavimenta o caminho para uma eventual saída de Amastha da secretaria com narrativa pronta: tentou, alertou, trabalhou — mas não foi ouvido.
Análise: um movimento político calculado
A publicação da carta em tom respeitoso, porém firme, revela um movimento estratégico de reposicionamento. Amastha protege sua imagem de gestor técnico e reforça laços com sua base eleitoral. Ao apresentar-se como defensor da cidade contra “vaidades e bastidores”, mantém-se no jogo político como alternativa de liderança, especialmente num cenário de desgaste da atual administração.
Com narrativa construída e apoio digital imediato — a carta viralizou nas redes locais —, Amastha prepara o terreno para 2024. Seja como oposição moderada, seja como nome para a sucessão, sua movimentação não é apenas administrativa: é política, pensada e cronometrada.