Editorial | Trump, o presidente que quer ser rei do mundo

Editorial | Trump, o presidente que quer ser rei do mundo
Presidente Donald Trump assina ordem executiva que proíbe a participação de mulheres transgênero em competições esportivas femininas nos EUA.
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 28 de julho de 2025 14

Ricardo Fernandes I Diário Tocantinense- “Eu sou a vingança.” A frase dita por Donald Trump durante a campanha que o reconduziu à presidência dos Estados Unidos em 2025 não foi um improviso: foi um manifesto. Desde que reassumiu o cargo mais poderoso do planeta, Trump vem agindo como quem não busca governar dentro dos limites constitucionais de uma democracia, mas sim reinar acima deles. Ele não quer apenas presidir uma nação: quer definir sozinho a ordem global. E está fazendo isso.

Logo nos primeiros dias do novo mandato, Trump anunciou a retirada oficial dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS), ameaçou cortar o financiamento à ONU, reafirmou a saída do Acordo de Paris e indicou que vai rever todos os compromissos multilaterais dos EUA. Em uma série de declarações públicas e ações executivas, deixou claro que não pretende mais dividir o protagonismo global com aliados históricos ou instituições internacionais. A mensagem é direta: o mundo será moldado à imagem e semelhança do que Trump considera aceitável.

A reação global foi imediata — e desigual. Líderes como Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, celebraram a aproximação, agradecendo a Trump por sua mediação na libertação de reféns e pela promessa de apoio incondicional a ofensivas militares. Já o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy foi humilhado publicamente ao ser interrompido por Trump e seu vice, J.D. Vance, em uma reunião transmitida ao vivo. A Ucrânia, que antes contava com o apoio militar irrestrito dos Estados Unidos, agora vive sob o risco de ser abandonada no meio do conflito. Em declarações posteriores, Trump impôs um ultimato: a Rússia tem de encerrar a guerra em até 12 dias. O prazo, mais simbólico do que realista, soou como chantagem para analistas internacionais.

Na Europa, a perplexidade é crescente. O novo acordo comercial assinado por Trump com a União Europeia impôs tarifas de 15% a produtos industriais europeus. O primeiro-ministro francês classificou a medida como “um dia negro para a Europa”, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que os EUA “deixaram de liderar o Ocidente”. Entre os diplomatas, o diagnóstico é claro: Trump não quer parceiros — quer súditos.

Sua política externa mistura impulsividade, revanchismo e cálculo eleitoral. Na África, criou uma crise diplomática ao acusar falsamente o governo sul-africano de perseguição racial contra agricultores brancos. Na Ásia, reivindicou para si a responsabilidade por um cessar-fogo entre Tailândia e Camboja, após ameaçar ambos os lados com sanções comerciais. No Oriente Médio, embora mantenha o apoio a Israel, criticou Netanyahu por conta da crise humanitária em Gaza, dizendo que “aquelas crianças parecem famintas” e pedindo uma abordagem “diferente” — não por princípios humanitários, mas por preocupação com a imagem pública dos aliados.

Nos bastidores, a Casa Branca já trabalha para consolidar um projeto de concentração de poder sem precedentes. O chamado “Project 2025” prevê a demissão em massa de servidores públicos de carreira e sua substituição por leais ao trumpismo. Com apoio de parte significativa da Suprema Corte e controle crescente sobre a máquina administrativa, Trump avança para desmontar os freios e contrapesos que sustentam a democracia americana. Segundo estimativas do New York Times, o novo gabinete de Trump será composto majoritariamente por ex-militares, empresários ultraconservadores e figuras ligadas à extrema direita religiosa.

A lógica é clara: Trump quer transformar a presidência em um trono e o cargo de comandante-em-chefe em algo mais próximo de um monarca ungido por “deus e povo”. E, para isso, se apresenta como salvador de um Ocidente em crise, prometendo “força”, “ordem” e “identidade”. O vocabulário que emprega remete a cruzadas, guerras santas e ideais nacionalistas que alimentaram regimes autoritários ao longo do século XX.

O impacto desse projeto de poder não se limita ao território americano. O trumpismo se tornou inspiração para a extrema direita global. Na Europa, partidos como o Vox (Espanha), Fidesz (Hungria) e Fratelli d’Italia (Itália) ecoam sua retórica. No Brasil, figuras alinhadas ao bolsonarismo veem em Trump um espelho e uma esperança de retorno ao eixo internacional conservador. Na Índia, na Polônia, nas Filipinas — onde lideranças locais reproduzem discursos de ordem moral e repressão —, Trump representa a consagração da política do medo como forma de governo.

Se, no passado, os EUA foram referência de democracia liberal e poder baseado em regras, agora seu presidente quer liderar por intimidação, barganha e chantagem. Trump não se vê como um governante submetido à lei. Ele se vê como a lei. E o mundo, como seu tabuleiro de xadrez pessoal.

O que está em jogo não é apenas o futuro dos Estados Unidos. É o modelo de governança internacional do século XXI. Trump quer ser o rei do mundo — mas reis não aceitam ser fiscalizados, contrariados ou derrotados nas urnas. E, uma vez no trono, poucos descem por vontade própria.

É papel das sociedades democráticas, da imprensa, das instituições multilaterais e da opinião pública global compreender que o desafio agora é sistêmico. Não se trata apenas de resistir a um líder autoritário. Trata-se de impedir que o século recomece onde o anterior falhou: acreditando que a democracia pode sobreviver ao culto ao poder absoluto.

Porque não há espaço para reis em um mundo que ainda deseja ser livre.

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