Sprites, Perseidas e a dança celeste: madrugada ilumina céus do Brasil com espetáculo raro de fenômenos atmosféricos e astronômicos

Sprites, Perseidas e a dança celeste: madrugada ilumina céus do Brasil com espetáculo raro de fenômenos atmosféricos e astronômicos
Crédito: Astrocan
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 29 de julho de 2025 2

Imagens captadas em Nhandeara (SP) mostram clarões vermelhos acima das nuvens de tempestade; observadores também registraram a passagem das Perseidas e conjunção entre Lua e Marte

A madrugada da última segunda-feira (28) foi marcada por um espetáculo raro e silencioso no céu brasileiro. Enquanto milhões dormiam, o firmamento dançava: uma sucessão de sprites — relâmpagos de altitude que brilham em vermelho sobre tempestades —, o pico da chuva de meteoros Perseidas e a conjunção entre a Lua crescente e Marte transformaram a atmosfera em palco de um balé invisível para os olhos desatentos.

As imagens foram registradas por câmeras de alta sensibilidade do Observatório Astrocan, localizado em Nhandeara, no interior de São Paulo. Os vídeos — enviados com exclusividade — mostram o momento em que sprites surgem como arcos incandescentes sobre as nuvens, a mais de 50 quilômetros de altitude.

Os sprites são a classe mais conhecida dos chamados Eventos Luminosos Transitórios. Eles se formam acima das tempestades, em altitudes entre 45 e 90 quilômetros, e são resultado de campos elétricos quase-eletrostáticos que surgem após a descarga de raios — principalmente aqueles que ocorrem da nuvem para o solo”, explicou o astrônomo Renato Poltronieri, responsável pelas análises no Astrocan.

O que são sprites?

Os sprites foram oficialmente documentados pela primeira vez em 1989, mas observações não científicas remontam a séculos anteriores. Visualmente, são colunas de luz avermelhada, com gavinhas azuladas penduradas abaixo, e muitas vezes antecedidos por halos luminosos tênues. Aparecem durante tempestades intensas, mas não são visíveis a olho nu — requerem câmeras sensíveis e céu limpo.

“Podem ser registrados a até mil quilômetros de distância da tempestade. São breves, mas não instantâneos. Enquanto relâmpagos comuns duram milissegundos, sprites persistem por tempo ligeiramente maior e, muitas vezes, ocorrem em grupos, como se o céu estivesse piscando em câmera lenta”, completa Poltronieri.

No Brasil, os primeiros registros sistemáticos desses fenômenos datam de 2014, por meio de parcerias entre o Observatório Astrocan e a rede BRAMON (Rede Brasileira de Monitoramento de Meteoros). Desde então, o país tornou-se referência no hemisfério sul para o estudo de fenômenos luminosos estratosféricos.

Uma madrugada rara

A mesma madrugada também foi palco da chuva de meteoros Perseidas, evento astronômico que ocorre anualmente entre julho e agosto, quando a Terra cruza os rastros do cometa Swift-Tuttle. Embora o fenômeno tenha maior visibilidade no hemisfério norte, alguns traços luminosos foram visíveis no Sudeste e no Centro-Oeste brasileiro, especialmente em áreas com baixa poluição luminosa.

Para completar o alinhamento cósmico, o início da noite foi marcado pela conjunção entre a Lua crescente e o planeta Marte, visível a olho nu logo após o pôr do sol. A proximidade dos dois astros — embora aparente — oferece aos observadores uma rara oportunidade de captar imagens impressionantes com equipamentos simples, como binóculos e câmeras de celular com lente adaptada.

Ciência e poesia

O impacto da madrugada não foi apenas científico. Nas redes sociais, internautas de cidades do interior de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso relataram “um céu diferente, mais limpo, mais brilhante”. Para os astrônomos, a combinação de três fenômenos em uma mesma janela de tempo é incomum — e instigante.

“Quando temos a presença simultânea de eventos atmosféricos de alta energia como sprites, uma chuva de meteoros ativa e uma conjunção planetária visível, o céu nos dá um lembrete claro de que a Terra está em constante diálogo com o cosmos. Somos parte de uma dança maior”, comenta Poltronieri.

Efeitos práticos

Embora visualmente belos, os sprites também são objeto de estudo por seu possível impacto sobre comunicações via rádio e satélite, uma vez que interagem com camadas superiores da atmosfera. Cientistas monitoram esses eventos para entender melhor como descargas elétricas em grande altitude afetam o campo eletromagnético terrestre.

Os dados coletados na madrugada desta segunda estão sendo analisados em conjunto por laboratórios no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

O que observar nas próximas noites?

Segundo os astrônomos, a atividade das Perseidas segue até meados de agosto, ainda que com intensidade decrescente. Já os sprites dependem de condições atmosféricas específicas: tempestades intensas, céu limpo e câmeras posicionadas com sensibilidade infravermelha e tempo de exposição adequado.

A dica para os próximos dias é simples: procure áreas afastadas das luzes urbanas, com horizonte livre e céu aberto. Leve uma câmera, um tripé — e paciência. O universo costuma recompensar quem olha para cima.

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