Ubatuba se consolida como paraíso das baleias-jubarte: temporada de avistamento vai até setembro

Ubatuba se consolida como paraíso das baleias-jubarte: temporada de avistamento vai até setembro
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 29 de julho de 2025 10

Litoral Norte de São Paulo vira ponto estratégico da rota migratória das gigantes do oceano; turismo ecológico cresce e exige atenção ambiental

Elas chegam com mais de 30 toneladas, saltam sobre o mar e encantam moradores, turistas e pesquisadores. As baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) transformaram Ubatuba, no Litoral Norte de São Paulo, em um dos principais pontos de observação de cetáceos no Brasil, em um fenômeno que mistura ciência, turismo e conservação ambiental. A temporada de avistamento já começou e segue até final de setembro, com picos entre agosto e a primeira quinzena de setembro.

Ubatuba faz parte da chamada rota migratória atlântica sul, utilizada pelas jubartes que deixam as águas geladas da Antártida em direção às regiões mais quentes do litoral brasileiro, onde se reproduzem e amamentam seus filhotes. O município paulista, com mais de 100 praias e localização estratégica entre o Sudeste e o Sul, virou um mirante natural privilegiado dessa travessia.

“Estamos diante de um fenômeno ambiental cada vez mais recorrente e visível. As jubartes passaram a usar essa região como corredor seguro de migração, e o número de registros cresce ano após ano”, explica a oceanógrafa Carolina Navarro, que coordena o grupo de pesquisa em cetáceos da região sudeste.

A ciência por trás do espetáculo

As baleias-jubarte percorrem cerca de 8 mil quilômetros entre o verão antártico e as águas tropicais do Brasil. Segundo o Instituto Baleia Jubarte, o número de indivíduos que utiliza o litoral brasileiro durante a migração passou de cerca de 1.000 nos anos 1990 para mais de 35 mil em 2024. A recuperação populacional é atribuída à proibição da caça e ao avanço das políticas de proteção marinha.

Em Ubatuba, grupos de pesquisa da Universidade de Taubaté (Unitau) e do Projeto Baleia à Vista monitoram a presença das jubartes por meio de drones, sensores acústicos e registros de embarcações locais. O objetivo é compreender padrões migratórios, mapear áreas críticas e promover a educação ambiental junto ao turismo.

“O comportamento das jubartes nesta costa é de deslocamento, não de reprodução ou permanência prolongada. Isso exige rotas seguras e baixa interferência humana, especialmente ruídos subaquáticos e aproximações imprudentes de barcos”, alerta o biólogo marinho Luis Arantes, consultor ambiental do ICMBio.

Turismo ecológico em alta — e sob vigilância

A presença das baleias impulsionou o surgimento de operadoras de turismo ecológico especializadas em avistamento embarcado, com rotas que saem de praias como Perequê-Açu, Itaguá e Enseada. Os passeios duram entre 2h e 4h e seguem protocolos definidos por órgãos ambientais.

Operadoras como a Ubatuba Whale Watch relatam aumento de 60% na demanda em relação ao mesmo período do ano passado. Mas o crescimento preocupa: há relatos de embarcações não autorizadas se aproximando demais dos animais, o que pode causar estresse e desorientação nas baleias.

“É fundamental que o turismo respeite a legislação ambiental: manter distância mínima de 100 metros, evitar perseguição e limitar o tempo de observação. As jubartes são sensíveis ao som e podem alterar seu comportamento migratório caso se sintam ameaçadas”, explica Arantes.

O IBAMA e a Marinha do Brasil intensificaram a fiscalização em julho e agosto, período de maior avistamento. A multa por perturbação de cetáceos pode ultrapassar R$ 10 mil por infração, além da apreensão da embarcação.

Onde e quando ver as baleias

A melhor época para observar as jubartes em Ubatuba é entre final de julho e meados de setembro, com maior chance de avistamento durante as manhãs. Além dos passeios embarcados, há registro de avistamentos a partir de mirantes e costões, especialmente nos bairros do Itaguá, Toninhas, Praia Vermelha do Norte e Ponta Grossa.

Entre as pousadas mais procuradas por turistas que buscam a experiência do turismo ecológico estão a Pousada Kaliman, na Enseada, a Itaguá Eco Lodge, voltada para observadores de fauna, e a Casa Guarani, que oferece pacotes integrados com passeios embarcados e oficinas ambientais.

Um paraíso sob risco

O aumento da presença de baleias em Ubatuba é um sinal positivo para a saúde dos oceanos, mas também um alerta. A cidade, que enfrenta pressão urbanística e crescimento desordenado em suas praias, precisa garantir que o desenvolvimento do turismo esteja aliado à preservação da biodiversidade.

“Ubatuba pode se consolidar como uma capital do turismo de conservação no Brasil. Mas isso só será possível com regulamentação, fiscalização e investimento em educação ambiental”, resume a oceanógrafa Carolina Navarro.

Para quem deseja ver de perto o espetáculo natural das jubartes, a orientação é clara: respeite a distância, vá com operadoras credenciadas e deixe o menor impacto possível. Afinal, o mar é delas — e cabe a nós aprender a conviver com esse privilégio.

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