Direita dividida: Tarcísio, Zema, Caiado, Michelle e Eduardo Bolsonaro atuam sem coesão às vésperas de 2026
Com Jair Bolsonaro inelegível e fora do tabuleiro eleitoral, a direita brasileira chega a 2025 com cinco nomes centraisdisputando protagonismo. Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Michelle Bolsonaro atuam em campos distintos, com discursos desarticulados. Já Eduardo Bolsonaro radicaliza sua atuação a partir dos Estados Unidos, defendendo abertamente sabotagens diplomáticas e econômicas contra o Brasil. O resultado é um cenário de fragmentação, instabilidade interna e desgaste político que preocupa, inclusive, o agronegócio e a classe empresarial.
Sem uma narrativa unificada, a direita — que em 2018 se consolidou como força de ruptura institucional — agora se mostra dispersa, dividida e em crise de identidade, abrindo espaço para o avanço de figuras como Helder Barbalho (MDB), que se articula discretamente no centro político com foco em governabilidade.
Tarcísio de Freitas: o técnico que evita conflito
Eleito governador de São Paulo com o apoio direto de Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas é considerado o nome mais forte da direita institucional. Ex-ministro da Infraestrutura, com apoio do mercado financeiro, tenta sustentar uma imagem de gestor moderado, distante das brigas ideológicas.
Seu maior desafio é manter o apoio dos bolsonaristas radicais sem repetir os excessos do ex-presidente. Evita ataques ao Supremo Tribunal Federal, não embarca em narrativas golpistas e foca em entregas administrativas. Isso o aproxima da elite econômica, mas o distancia da base militante. Internamente, há pressão para que ele se posicione sobre os atos e falas de Eduardo Bolsonaro, mas Tarcísio prefere o silêncio — tentando manter-se viável tanto para a direita quanto para o centro.
Romeu Zema: o liberal que não emociona
Governador de Minas Gerais pelo Novo, Romeu Zema representa a direita liberal clássica, com foco em austeridade, desburocratização e privatizações. Com estilo reservado, evita os holofotes e não participa do debate nacional com frequência. Embora tenha boa aprovação em seu estado, tem dificuldade de projeção fora dele.
Zema não tem presença digital consistente nem base mobilizada. A ausência de engajamento com as pautas sociais, religiosas ou conservadoras o deixa isolado no espectro da direita, sem apelo ao eleitorado bolsonarista. Também não se manifesta sobre a postura radical de Eduardo Bolsonaro, reforçando a imagem de alguém alheio à disputa real por poder no plano nacional.
Ronaldo Caiado: o conservador institucional
Governador de Goiás, médico e com longa trajetória no Congresso, Ronaldo Caiado tenta representar um conservadorismo mais clássico. Rompeu com Bolsonaro ainda durante a pandemia, ao defender a vacinação e o sistema público de saúde, e se tornou alvo de críticas da base radical. Caiado mantém apoio sólido do agronegócio e prefeitos do interior, mas tem dificuldade de expandir sua presença política para além do Centro-Oeste.
Sua atuação é centrada na institucionalidade, no federalismo e na defesa de pautas tradicionais, como segurança pública e combate ao narcotráfico. No entanto, o isolamento partidário no União Brasil e sua distância das redes dificultam qualquer pretensão presidencial sólida. Assim como os demais, evita confrontar ou endossar publicamente Eduardo Bolsonaro — o que o mantém no campo da neutralidade improdutiva.
Michelle Bolsonaro: o carisma sem plano de governo
Michelle é o nome mais simbólico da direita conservadora hoje. Com enorme apelo nas igrejas evangélicas, presença ativa nas redes sociais e carisma natural, ela é a herdeira do capital político do marido. Mas sua candidatura é considerada frágil estruturalmente. Michelle nunca exerceu cargo eletivo, não tem base partidária independente e evita entrevistas e debates políticos complexos.
Dentro do PL, seu nome é cogitado para compor uma chapa como vice, mas não como cabeça. Ela tem evitado falar sobre temas polêmicos e, até o momento, não comentou publicamente a atuação do cunhado nos Estados Unidos. Seu silêncio, no entanto, não impede que sua imagem esteja diretamente associada à marca Bolsonaro — inclusive às crises diplomáticas criadas por Eduardo.
Eduardo Bolsonaro: o radical em solo estrangeiro
Dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro tem desempenhado o papel mais controverso da direita brasileira. Em entrevistas à CNN Brasil, o deputado afirmou que atua para sabotar agendas diplomáticas de senadores brasileiros nos EUA e que não se preocupa com eventuais prejuízos ao país:
“Se houver um cenário de terra arrasada, pelo menos estarei vingado desses ditadores de toga.”
(CNN Brasil)
Reportagem da revista VEJA revelou que Eduardo tem pressionado think tanks ligados a Donald Trump e articulado sanções contra o STF e contra produtos brasileiros. Como resultado, os EUA anunciaram tarifas de até 50% sobre commodities brasileiras — medida que pode gerar, segundo estudo da UFMG citado pela Gazeta do Povo, mais de 110 mil demissões e perdas superiores a R$ 19 bilhões no PIB nacional.
A repercussão foi imediata. Empresários do agronegócio passaram a expressar desconforto, e até aliados próximos demonstraram preocupação. Em entrevista à rádio Itatiaia, o senador Flávio Bolsonaro afirmou que o irmão se tornou um “bode expiatório”, mas reconheceu que suas ações têm provocado tensão internacional e prejudicado o setor exportador brasileiro.
Um campo político sem direção
O que une Tarcísio, Zema, Caiado e Michelle hoje não é um projeto comum, mas a ausência dele. Nenhum deles apresentou até o momento um plano de país, uma proposta econômica articulada ou uma resposta ao vácuo deixado por Jair Bolsonaro. Eduardo, por outro lado, atua por fora das instituições, criando crises em nome de uma vingança pessoal — que já custa caro ao país.
A fragmentação da direita deixa o campo aberto para candidatos mais organizados, como Helder Barbalho (MDB), que articula alianças no Norte e no Nordeste com foco na governabilidade e nos prefeitos. Enquanto a direita briga consigo mesma ou se cala diante do radicalismo, o centro avança, silencioso, mas constante.