Radicalização no exílio: Eduardo Bolsonaro age dos EUA e amplia crise na direita brasileira

Radicalização no exílio: Eduardo Bolsonaro age dos EUA e amplia crise na direita brasileira
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 30 de julho de 2025 4

Enquanto Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Michelle Bolsonaro disputam o espólio político da direita sem articulação unificada, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) protagoniza, diretamente dos Estados Unidos, uma ofensiva de radicalização internacional que já preocupa diplomatas, empresários e o agronegócio.

Agindo longe do Congresso, Eduardo tem atuado como espécie de “embaixador informal do bolsonarismo” em território americano. Com discursos agressivos contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e articulações para promover sanções contra o Brasil junto a figuras do trumpismo, o filho do ex-presidente ignora os impactos econômicos de sua agenda internacional — e tem defendido abertamente um cenário de instabilidade política.

“Se houver um cenário de terra arrasada, pelo menos estarei vingado desses ditadores de toga”, declarou Eduardo em entrevista à CNN Brasil.

A fala veio em meio a um contexto delicado: o governo dos Estados Unidos aprovou tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, entre eles carnes e metais, em uma movimentação que contou com apoio direto de Eduardo, segundo revelaram investigações da imprensa.

A direita se fragmenta: quatro pré-candidatos, nenhum projeto comum

A ação unilateral de Eduardo ocorre enquanto os principais nomes do campo conservador operam de forma descoordenada:

  • Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, tenta se equilibrar entre o legado bolsonarista e a imagem de gestor técnico. É apoiado por setores empresariais, mas enfrenta desconfiança da base radical.

  • Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, segue com seu discurso liberal ortodoxo. Possui reputação de gestor, mas é ausente dos grandes debates políticos e distante do eleitorado emocionalmente mobilizado.

  • Ronaldo Caiado (União Brasil), governador de Goiás, representa o conservadorismo tradicional e o agronegócio. Foi um dos poucos líderes de direita a se posicionar contra os abusos retóricos do bolsonarismo durante a pandemia.

  • Michelle Bolsonaro (PL), com forte apelo evangélico e grande influência nas redes, ainda é tratada como uma figura simbólica. Não possui experiência administrativa nem articulação política própria.

O que une essas lideranças, na prática, é apenas o silêncio em relação à escalada de Eduardo nos Estados Unidos.

Eduardo Bolsonaro nos EUA: sabotagem institucional e orgulho da destruição

Em Washington, Eduardo vem atuando para impedir reuniões diplomáticas de senadores brasileiros com autoridades norte-americanas. A estratégia, segundo ele, é dificultar qualquer tentativa de restabelecimento da imagem institucional do país.

“Eu faço questão de atrapalhar a agenda deles aqui”, afirmou Eduardo à CNN Brasil.

A reportagem da VEJA revelou que o deputado tem atuado junto a think tanks ultraconservadores americanos para sustentar um discurso de “desobediência civil institucionalizada” no Brasil, pressionando inclusive o governo Trump para que adote medidas punitivas contra os ministros do STF e setores ligados ao atual governo.

Já o El País divulgou detalhes da aproximação de Eduardo com aliados de Steve Bannon e congressistas trumpistas, construindo pontes com grupos que atuaram no Capitólio em 2021 e defendem retaliações ao Brasil por “perseguir conservadores”.

Prejuízo no agro: tarifas e desemprego preocupam empresários

A retaliação americana sobre exportações brasileiras foi estimada por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) como causadora de 110 mil desempregos diretos e indiretos, dos quais 41 mil no agronegócio. A perda para o PIB pode ultrapassar R$ 19 bilhões, segundo dados divulgados pela Gazeta do Povo.

A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) têm manifestado apreensão crescente com a atuação de Eduardo. Nos bastidores, parlamentares e exportadores classificam sua retórica como “suicida”.

“Essa retórica antidemocrática é péssima para os negócios”, avaliou um consultor de comércio internacional ouvido pela reportagem.

Mesmo Flávio Bolsonaro, irmão de Eduardo, alertou sobre os riscos diplomáticos e classificou o irmão como “bode expiatório” diante das crescentes pressões econômicas. A fala foi registrada pelo portal Itatiaia.

O vácuo estratégico e o avanço da moderação

Enquanto os pré-candidatos da direita tentam definir caminhos e evitar confrontos públicos entre si, Eduardo Bolsonaro atua de forma descolada, tensionando o discurso e polarizando ainda mais o ambiente político. A falta de um projeto articulado para 2026 esvazia o campo conservador e expõe sua vulnerabilidade.

Nesse cenário, nomes como Helder Barbalho (MDB) ganham espaço com uma postura institucional, pragmática e regionalmente enraizada. O vácuo deixado pela direita sem rumo e pela radicalização descontrolada abre caminho para uma nova configuração do centro político.

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