Brasil deixa o Mapa da Fome da ONU: entenda o que isso significa na prática
Relatório da FAO confirma que percentual da população em situação de fome caiu para menos de 2,5%. Estratégias sociais, agricultura familiar e políticas públicas integradas foram determinantes para a saída do Brasil do Mapa da Fome.
O Brasil saiu oficialmente do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas o que isso quer dizer, na prática?
Significa que menos de 2,5% da população brasileira está em situação de subalimentação crônica — ou seja, que vive sem consumir a quantidade mínima de calorias diárias necessárias para manter a saúde e realizar atividades básicas. O dado consta do novo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), publicado nesta quarta-feira (31).
Esse é o critério técnico usado internacionalmente para dizer que um país está ou não no Mapa da Fome. Se mais de 2,5% da população sofre de fome prolongada e contínua, o país é incluído. Se fica abaixo disso, é retirado da lista.
A última vez que o Brasil havia saído do Mapa foi em 2014. Mas voltou em 2022, após o agravamento da pobreza extrema e da insegurança alimentar, segundo o mesmo organismo da ONU.
Uma conquista antecipada
A exclusão atual ocorreu com mais de um ano de antecedência em relação à meta fixada pelo governo para 2026. Para especialistas e gestores públicos, o resultado foi alcançado graças a uma combinação de políticas sociais robustas, recomposição orçamentária e reativação de mecanismos estruturantes de segurança alimentar.
Destaque para o novo Bolsa Família, que passou a cobrir 21 milhões de lares com valor médio mensal de R$ 722, e para o Plano Brasil Sem Fome, que atua em cinco frentes: renda, produção, abastecimento, alimentação escolar e governança local.
“O Brasil está fora do Mapa da Fome, mas isso não quer dizer que a fome foi erradicada. Significa que ela deixou de ser estrutural e crônica. Ainda há insegurança alimentar, mas em níveis que permitem controle com políticas públicas eficazes”, explica um coordenador técnico do Plano Brasil Sem Fome.
O que é o Mapa da Fome?
Criado pela FAO, o Mapa da Fome é um levantamento mundial sobre o número de pessoas que vivem em subalimentação severa — ou seja, comendo abaixo do mínimo necessário de calorias por um período contínuo de ao menos um ano.
Para entender de forma simples:
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Se a pessoa passa fome regularmente porque não tem comida suficiente todos os dias, entra na contagem;
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Se essa situação atinge mais de 2,5% da população do país, ele entra no Mapa da Fome;
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Quando essa taxa fica abaixo de 2,5%, o país é retirado da lista.
Segundo o relatório, o Brasil reduziu esse número para abaixo do limite pela primeira vez em quase uma década.
O que ajudou o Brasil a sair da lista
O documento da FAO aponta que o país retomou de forma coordenada o combate à fome com ações como:
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Ampliação do Bolsa Família com foco em famílias vulneráveis;
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Compra de alimentos da agricultura familiar para merenda escolar;
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Reativação de estoques públicos para estabilizar preços;
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Apoio direto à produção local de alimentos básicos, especialmente em regiões do Semiárido e da Amazônia;
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Fortalecimento dos conselhos de segurança alimentar nos estados e municípios.
Além disso, o programa Brasil Sem Fome criou metas específicas para combater a insegurança alimentar infantil, com atenção especial à primeira infância e às mães solo. Mais de 3,1 milhões de famílias em situação de fome severa passaram a receber assistência regular e ampliada nos últimos 18 meses.
Especialistas comemoram, mas pedem atenção ao risco de retrocesso
Pesquisadores e ativistas da área de segurança alimentar afirmam que a saída do Mapa da Fome é simbólica, mas não pode significar relaxamento. O país ainda convive com insegurança alimentar moderada, especialmente entre populações periféricas, indígenas, quilombolas e moradores de áreas isoladas.
“O número abaixo de 2,5% indica que a fome deixou de ser uma condição contínua para a maioria. Mas milhões ainda oscilam entre comer e não comer. A vitória é estrutural, mas a vigilância precisa ser constante”, afirmou uma das integrantes da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN).
Levantamento da rede indica que cerca de 33 milhões de brasileiros ainda convivem com algum grau de insegurança alimentar, o que reforça a necessidade de continuidade dos programas.
Próximos passos
O governo federal anunciou que pretende ampliar a meta para 2030, com foco em zerar a insegurança alimentar severa em grupos específicos, como populações em situação de rua e áreas de conflito fundiário.
Além disso, a Conab e o Ministério do Desenvolvimento Agrário devem apresentar ainda em agosto um novo plano de abastecimento alimentar para estados com baixo desempenho nutricional, como parte da segunda fase do Plano Brasil Sem Fome.