Fitoterapia em alta: Farmácia Popular amplia acesso e o mercado brasileiro movimenta R$ 1,8 bilhão
Espinheira-santa, maracujá e mulungu lideram entre os mais prescritos; especialistas apontam avanço no acesso, mas alertam para falta de regulação e apoio à cadeia produtiva
O mercado de fitoterápicos no Brasil registrou movimentação estimada em R$ 1,8 bilhão em 2024, impulsionado tanto pelo setor privado quanto pelo avanço da política pública de saúde integrativa. A partir de 2025, o programa Farmácia Popular passou a cobrir 100% dos medicamentos fitoterápicos, o que ampliou o acesso da população a terapias naturais consagradas no cuidado tradicional brasileiro.
Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Fitoterápicos (ABIFITO) e de fontes oficiais do Ministério da Saúde, que confirmam a ampliação da oferta de produtos à base de plantas medicinais na rede pública e no varejo farmacêutico.
SUS amplia cobertura e fortalece política nacional
Integrada ao SUS desde 2006 como uma das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), a fitoterapia é ofertada hoje em mais de 900 municípios brasileiros. A novidade em 2025 foi a incorporação desses medicamentos à lista de itens fornecidos gratuitamente pelo programa Farmácia Popular, que conta com mais de 31 mil farmácias credenciadas.
Entre os fitoterápicos mais procurados no sistema público e nas farmácias populares estão:
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Espinheira-santa (Maytenus ilicifolia), indicada para tratamento de gastrites e úlceras;
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Maracujá (Passiflora spp.), usado como calmante natural e ansiolítico leve;
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Mulungu (Erythrina mulungu), prescrito para quadros leves de insônia e ansiedade.
A lista completa dos principais princípios ativos vegetais utilizados em fitoterapia pode ser consultada aqui.
Especialistas veem avanço, mas alertam para gargalos
Segundo especialistas da área de saúde integrativa, a ampliação da fitoterapia no SUS representa um avanço na democratização do acesso a práticas terapêuticas seguras, baseadas em saberes tradicionais e evidências clínicas.
“A inclusão integral desses medicamentos nas Farmácias Populares é um marco. Mas ainda há desafios no campo regulatório, na fiscalização da qualidade e na estruturação da cadeia produtiva”, alerta um pesquisador da área.
O principal obstáculo, segundo os especialistas, está no desequilíbrio entre o potencial fitoterápico da biodiversidade brasileira e sua exploração comercial e científica.
Brasil é rico em plantas, mas pobre no mercado
Mesmo com uma das maiores biodiversidades do mundo, o Brasil ainda tem presença tímida no mercado internacional de fitoterápicos. Em 2023, o setor global movimentou cerca de US$ 216 bilhões, enquanto a participação brasileira ficou abaixo de 0,1% — segundo dados reunidos pelo Jornal GGN.
Esse contraste acendeu alertas entre representantes do setor farmacêutico e pesquisadores, que defendem maior incentivo à industrialização de princípios ativos locais e à regulamentação de produtos naturais, para evitar que a informalidade comprometa a segurança terapêutica.
Demanda cresce por soluções menos agressivas
A procura por medicamentos à base de plantas cresceu no Brasil após a pandemia, quando houve maior adesão da população a produtos associados à saúde mental, imunidade e qualidade do sono. Além de seu uso tradicional, os fitoterápicos têm sido recomendados por profissionais da saúde como primeira linha de tratamento em quadros leves de ansiedade, distúrbios digestivos e estresse crônico.
“Espécies como mulungu, maracujá e valeriana são associadas à redução de danos, com menos efeitos colaterais do que ansiolíticos tradicionais. A fitoterapia é eficaz, segura e acessível quando bem indicada”, afirma um profissional de saúde integrativa ouvido pela reportagem.
O que diz a política pública
A Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, criada em 2006 e atualizada em 2018, estabelece diretrizes para uso racional, capacitação de profissionais e incentivo à produção local de insumos naturais. O documento oficial está disponível neste link.
O avanço das práticas integrativas também faz parte da agenda estratégica do Ministério da Saúde para a atenção primária, que busca integrar práticas seguras e baseadas em evidência ao cuidado continuado da população.