“Google, como passa roupa?”: Geração Z recorre à internet para aprender tarefas básicas e revela fragilidade na autonomia doméstica

“Google, como passa roupa?”: Geração Z recorre à internet para aprender tarefas básicas e revela fragilidade na autonomia doméstica
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 3 de agosto de 2025 5

Levantamento do Google mostra que jovens de até 24 anos lideram buscas por como limpar a casa, cozinhar e trocar o óleo do carro. Psicólogos apontam reflexo de insegurança e isolamento geracional

Na mesma velocidade com que dominam códigos de programação, edições em vídeo e linguagens de redes sociais, jovens da Geração Z — nascidos entre meados dos anos 1990 e 2010 — enfrentam um novo tipo de desafio: trocar uma lâmpada, passar uma camisa ou preparar arroz branco.

Segundo dados divulgados em maio de 2025 pelo Think with Google, plataforma oficial da empresa para análise de comportamento digital, os jovens dessa geração lideram, em escala global, as bilhões de buscas diárias relacionadas a tarefas básicas da vida doméstica. A pesquisa acompanhou usuários em cidades como São Paulo, Curitiba e Recife, e identificou que a geração mais conectada da história recorre cada vez mais à internet para aprender o que gerações anteriores costumavam aprender em casa.

A autonomia que passa por um tutorial

O fenômeno, que também se reflete em países como Estados Unidos e Reino Unido, evidencia uma mudança estrutural: o aprendizado intergeracional — com pais, avós ou vizinhos — tem sido substituído por respostas digitais em tempo real, acessadas por voz, texto ou inteligência artificial.

Para a psicóloga Amanda Torres, a geração Z foi moldada por uma lógica de acesso instantâneo à informação, o que afeta diretamente sua segurança subjetiva:

“Eles foram expostos precocemente a telas, dispositivos e plataformas. Aprenderam a buscar rápido, resolver rápido e responder rápido. Mas nem sempre com a vivência necessária para lidar com frustração, erro e espera.”

A psicóloga alerta que esse padrão favorece uma autonomia fragilizada, marcada por dependência tecnológica para executar tarefas simples, e medo excessivo de errar.

Medo do julgamento, ansiedade e busca por perfeição

Além da praticidade, há um componente emocional: a ansiedade em errar, alimentada por ambientes digitais que expõem, julgam e comparam.

“Vivemos cercados de redes sociais onde pessoas se comparam o tempo todo, desvalidam vivências e onde a ansiedade não dá espaço para a vivência de processos. Isso gera insegurança e necessidade constante de validação externa”, explica Amanda.

Esse comportamento reflete um paradoxo contemporâneo: enquanto a geração Z é vista como informada e conectada, também é a que mais declara sentir insegurança diante de responsabilidades práticas da vida adulta, como cozinhar, lavar roupas ou limpar a casa.

Quando o YouTube substitui a avó

O impacto mais profundo, segundo especialistas, está no enfraquecimento do contato intergeracional. A ausência da figura do adulto como mediador no processo de aprendizagem doméstica empobrece vínculos afetivos e reduz oportunidades de construção de identidade e pertencimento.

“Recorrer a familiares ou professores para aprender uma tarefa não é só obter informação. É criar vínculo, receber afeto e desenvolver autoestima”, afirma Amanda Torres. “Quando isso é substituído por tutoriais, perdemos mais do que técnica — perdemos contato humano.”

Brasil e o mundo: comportamento global, sintomas locais

Nos Estados Unidos, o Pew Research Center identificou que mais da metade dos usuários do YouTube usam a plataforma para “descobrir como fazer coisas que nunca fizeram antes”. No Brasil, vídeos com títulos como “como tirar mofo do banheiro”, “como montar marmita saudável” e “como dobrar lençol de elástico” figuram entre os mais vistos no TikTok e YouTube Shorts.

Além do Google, o TikTok tem se consolidado como uma plataforma de aprendizado informal. Hashtags como #faxinaterapia, #donadecasa e #organizaçãodoméstica ultrapassam 2 bilhões de visualizações.

A geração que sabe tudo — mas não sabe o que fazer

Representando cerca de 30% da população brasileira, a geração Z é protagonista de um novo cenário: acumula conhecimento técnico, mas carece de habilidades instrumentais simples. As consequências vão além do ambiente doméstico: afetam a formação da identidade, a autoestima e até a capacidade de lidar com a vida adulta de forma prática e emocionalmente madura.

“A internet pode ensinar muita coisa, mas não substitui o toque, o olhar e a segurança que só vínculos humanos proporcionam”, resume Amanda.

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