Resenha | Sociedade da Neve: quando o horror é coletivo, mas a humanidade também

Resenha | Sociedade da Neve: quando o horror é coletivo, mas a humanidade também
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 3 de agosto de 2025 4

Lançado mundialmente pela Netflix em dezembro de 2023, Sociedade da Neve (La Sociedad de la Nieve), dirigido pelo espanhol J. A. Bayona, é mais do que uma reconstrução cinematográfica da tragédia andina de 1972. É uma obra de linguagem visual densa, marcada por escolhas estéticas e narrativas que transformam o épico da sobrevivência num tratado sobre ética, solidariedade e a desconstrução da condição humana em cenários-limite. O filme foi escolhido como representante da Espanha no Oscar 2024, onde foi indicado nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Maquiagem e Cabelo — e não por acaso: ele conjuga rigor técnico, apuro ético e uma sensibilidade narrativa rara.

 O enredo: uma tragédia já contada, mas nunca assim

O longa parte do acidente real do voo 571 da Força Aérea Uruguaia, que levava 45 pessoas — em sua maioria jovens jogadores de rúgbi do time Old Christians Club e seus familiares — de Montevidéu para o Chile. A queda do avião na Cordilheira dos Andes, em 13 de outubro de 1972, foi apenas o início de uma narrativa marcada pela escassez, pelo frio extremo e por decisões que desafiaram os limites da moral ocidental: para sobreviver, os jovens recorreram ao canibalismo. Mas Sociedade da Neve não é sobre o escândalo — é sobre o silêncio, o luto e o pacto.

A escolha de Numa Turcatti, um dos mortos, como narrador póstumo, revela desde o início que a proposta do filme não é celebrar os “vitoriosos”, mas dar voz aos esquecidos. Narrar do ponto de vista de um cadáver é também, simbolicamente, convocar os mortos como testemunhas da ética do grupo, ressaltar a presença dos ausentes. A estrutura narrativa cíclica, que alterna lembranças, diálogos e imagens congeladas, reforça a ideia de que a linha entre a vida e a morte se tornou turva, quase metafísica.

Avaliação técnica: rigor estético e austeridade formal

Bayona, conhecido por obras sensíveis como O Impossível (2012) e Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016), faz aqui seu trabalho mais austero. A fotografia, assinada por Pedro Luque, é quase monocromática, dominada por brancos, cinzas e tons azulados, evidenciando o apagamento das cores, das certezas e das esperanças. A neve não é paisagem: é personagem. Ela sufoca, silencia, enterra. Sua presença onipresente constrói uma atmosfera fúnebre e contemplativa.

A trilha sonora de Michael Giacchino evita crescendos épicos. Prefere a ausência. E essa escolha reforça a sensação de abandono: o som, quando surge, é interior, quase como se emanasse da memória dos sobreviventes. O silêncio se torna uma linguagem.

O trabalho de maquiagem e efeitos práticos também merece destaque. O emagrecimento progressivo dos corpos, os rostos queimados pelo frio, as feridas abertas e as transformações físicas dos personagens são tratados com precisão, mas sem sensacionalismo. A miséria física é mostrada, mas o foco permanece nos olhos: é lá que mora o verdadeiro colapso.

Semiótica e simbologia: da carne ao espírito

No plano simbólico, Sociedade da Neve propõe uma ruptura com os códigos morais tradicionais. A neve, que em culturas judaico-cristãs remete à pureza, torna-se símbolo de morte, silêncio e apagamento. O avião — artefato de progresso e civilização — é despedaçado, e suas partes são reutilizadas como abrigo, lenha, cama e até altar. Há uma dessacralização da modernidade: tudo que restou foi o corpo.

O canibalismo, longe de ser tratado como tabuleiro de horror, é ressignificado como liturgia. Em várias cenas, os jovens fazem pactos uns com os outros: “Se eu morrer, pode comer meu corpo”. A carne, nesse contexto, é símbolo de comunhão. Há uma clara analogia com a Eucaristia cristã: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. Eles não comem por prazer, nem por impulso animal: eles comem por pacto, por lealdade, por fé.

O título do filme reforça essa ideia. Não é “O Milagre dos Andes”, como outras versões. É “sociedade” — conceito que remete à organização, ao pacto, ao coletivo. A palavra evoca Rousseau, Durkheim, Bauman. Mesmo diante do colapso da civilização, eles criam regras, acordos, códigos morais. Eles fundam uma nova sociedade sobre os escombros da anterior.

Escolhas narrativas: um antiepicismo deliberado

Bayona opta por romper com a lógica tradicional de heróis e vilões. Nando Parrado e Roberto Canessa, que caminharam dez dias pela cordilheira até encontrar ajuda, não são os protagonistas absolutos. São apenas parte de um organismo coletivo. O destaque é difuso. A câmera dá tempo igual aos que falam e aos que calam. Essa recusa em centrar a história num indivíduo é uma escolha política e narrativa que reafirma a tese central do filme: ninguém sobreviveu sozinho.

A montagem, lenta e por vezes repetitiva, reforça a exaustão. Os dias se confundem, as mortes se sobrepõem. Não há grandes arcos dramáticos. Há apenas a resistência — física, emocional, moral. E essa recusa em romantizar o sofrimento é uma das forças da obra.

Recepção e impacto

A crítica internacional elogiou amplamente o filme. No Rotten Tomatoes, Sociedade da Neve alcançou mais de 90% de aprovação, sendo descrito como “uma meditação poderosa sobre o espírito humano em meio ao colapso”. No Brasil, portais como Folha de S.Paulo e El País Brasil destacaram o tratamento ético da tragédia e a maturidade do cinema espanhol na condução de narrativas históricas com humanidade.

Na América Latina, especialmente no Uruguai, o filme teve impacto emocional profundo. Muitos familiares dos sobreviventes participaram das gravações e contribuíram para a fidelidade histórica. As roupas, nomes, falas e objetos foram recriados com base em fotos reais e entrevistas com os sobreviventes.

Uma obra sobre o essencial

Sociedade da Neve é um filme sobre o que resta quando tudo é tirado. Não há Estado, não há igreja, não há tecnologia. Resta o outro. Resta a decisão. Resta a carne. Em tempos em que a moral é muitas vezes confundida com dogma e a solidariedade é esvaziada por discursos meritocráticos, o filme é um lembrete de que sobreviver é, acima de tudo, um ato político — e coletivo.

Não é fácil de assistir. Nem deve ser. Sociedade da Neve não quer entreter: quer lembrar. Quer fazer pensar. E consegue.

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