Igreja reconhece força da fé popular brasileira em audiência entre Papa Leão XIV e Jubielu

Igreja reconhece força da fé popular brasileira em audiência entre Papa Leão XIV e Jubielu
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 7 de agosto de 2025 2

O Vaticano enviou um recado direto ao Brasil: a fé popular, tantas vezes marginalizada por setores eclesiásticos tradicionais, está no centro das preocupações do papado atual. Em uma audiência privada realizada nesta segunda-feira (4), o Papa Leão XIV recebeu o pregador brasileiro Jubielu, figura carismática e controversa que atua fora das estruturas eclesiais formais, mas com forte apelo entre fiéis do Norte e Centro-Oeste.

O encontro foi confirmado pelo Serviço de Imprensa da Santa Sé e integra a nova linha de atuação do pontífice, eleito em maio de 2025, após a morte de Francisco. Ao abrir espaço para lideranças de fora da hierarquia tradicional, Leão XIV sinaliza o reconhecimento das múltiplas formas de vivência da espiritualidade cristã, especialmente na América Latina.

Fé popular: da marginalidade ao centro do altar

A chamada fé popular brasileira compreende um amplo conjunto de práticas religiosas vividas nas margens institucionais: novenas, romarias, promessas, curas, exorcismos e profecias. Muitas vezes deslegitimada por setores do clero, ela foi resgatada e valorizada a partir da Conferência de Puebla (1979), onde foi reconhecida como “expressão autêntica da busca de Deus pelo povo”.

Documentos posteriores da CNBB e do Pontificado de Francisco também celebraram a religiosidade popular como “tesouro teológico”, como registrado no Documento de Aparecida (2007), co-redigido pelo então cardeal Jorge Mario Bergoglio.

O gesto de Leão XIV ao acolher Jubielu não apenas dá continuidade a essa tradição, mas também a aprofunda. Ao fazer isso com um líder não institucional, que atua à margem da Igreja e fora de denominações estabelecidas, o novo Papa reafirma a centralidade da periferia na espiritualidade do século XXI.

Quem é Jubielu?

Natural de Palmas (TO), Jubielu é um pregador itinerante que mistura teologia apocalíptica com ritos espontâneos de cura e libertação. Não possui vínculo com nenhuma igreja formal, mas se apresenta como “profeta do fim dos tempos” e reúne multidões em cruzadas de fé por cidades do Tocantins, Maranhão, Pará e Goiás.

Nos últimos anos, tornou-se um fenômeno nas redes sociais com transmissões ao vivo no canal @jubieluoficial, onde aparece orando, jejuando, batizando e fazendo “orações contra principados”.

Embora criticado por setores evangélicos tradicionais e por membros do clero católico, é visto por seus seguidores como um instrumento de Deus para os dias de tribulação. A audiência com o Papa, nesse sentido, é entendida por fiéis como um “selo de legitimidade espiritual”.

Leão XIV e a teologia das margens

O Papa Leão XIV, nome adotado pelo americano Robert Francis Prevost, é conhecido por seu olhar atento às realidades periféricas. Sua trajetória como missionário no Peru e como bispo na América Latina o colocou em contato direto com expressões de fé marginalizadas, mas vivas e pulsantes.

Sua eleição no Conclave de 2025, após a morte de Francisco, consolidou a linha de “Igreja em saída”, fortalecida no papado anterior. Ao receber Jubielu, Leão XIV reforça que o Espírito Santo não sopra apenas nos palácios romanos, mas também nas ruas de Araguaína, Imperatriz e Marabá.

Repercussão no Brasil

A audiência gerou forte repercussão no Tocantins. Em comunidades católicas e evangélicas de base, o gesto foi interpretado como um “reconhecimento do povo de Deus que não cabe nos templos”. Lideranças religiosas de Palmas, Porto Nacional e Gurupi celebraram a visita, enquanto a Arquidiocese de Palmas divulgou nota em tom cauteloso, pedindo “discernimento diante da diversidade de expressões da fé”.

Fiéis compartilharam vídeos emocionados da transmissão do Vaticano, e a hashtag #JubieluComOPapa ganhou força nas redes sociais, especialmente entre jovens cristãos do interior.

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