Arte em alta: cultura brasileira se reinventa e cresce mesmo em tempos de crise

Arte em alta: cultura brasileira se reinventa e cresce mesmo em tempos de crise
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 12 de agosto de 2025 7

Em um Brasil marcado por instabilidade econômica e cortes orçamentários em diversas áreas, a cultura não apenas resiste, como se reinventa. Do cinema à música, do artesanato ao teatro, setores culturais têm encontrado novas formas de existir, apoiados por políticas públicas, investimentos privados e iniciativas comunitárias. No Tocantins, projetos estruturantes e histórias locais de sucesso revelam como a produção artística se mantém ativa, impulsionando a economia criativa e reforçando identidades regionais.

Cultura como motor econômico

Segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do IBGE, o setor cultural e criativo responde por aproximadamente 3,1% do PIB brasileiro e emprega, de forma direta e indireta, mais de 7,5 milhões de pessoas. Em momentos de crise, a cultura também cumpre papel anticíclico, gerando renda, turismo e integração social.

No Tocantins, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) destinou, em 2025, R$ 2,3 milhões por meio da Política Nacional de Cultura Viva (PNCV) — recurso proveniente de parceria com o Ministério da Cultura. Desse montante, R$ 780 mil foram para Pontos de Cultura, R$ 360 mil para Pontões e R$ 1,23 milhão para prêmios a iniciativas já consolidadas. A verba beneficiou desde grupos de música tradicional até coletivos de audiovisual, artes cênicas e artesanato.

Estrutura e políticas de longo prazo

O estado conta ainda com o Plano Estadual de Cultura (PEC-TO), documento que estabelece metas e prioridades para os próximos dez anos, integrando o Fundo Estadual de Cultura e o Sistema Estadual de Informações Culturais (MAPA-TO). Entre as ações previstas, estão a reforma e modernização de equipamentos culturais, como teatros e centros de convenções, e a digitalização de acervos históricos.

“O objetivo é garantir que a cultura não dependa exclusivamente de eventos pontuais ou de patrocínios ocasionais, mas que tenha uma estrutura de base sólida, capaz de se sustentar no longo prazo”, explica a secretária estadual de Cultura, em nota oficial.

Resistência e inovação na prática

Mesmo com o avanço das políticas públicas, a sobrevivência cultural exige criatividade e capacidade de adaptação. Em Palmas, o Festival Gastronômico de Taquaruçu incorporou apresentações musicais de artistas regionais, fortalecendo o turismo e gerando oportunidades para músicos independentes. No interior, grupos de artesanato transformaram feiras presenciais em marketplaces virtuais, garantindo vendas para outros estados.

Exemplos nacionais também inspiram. O AfroReggae, no Rio de Janeiro, diversificou sua atuação com o AfroGames, projeto que une eSports, inclusão social e formação tecnológica para jovens de comunidades. No Pará, o Dança Carajás Festival consolidou-se como espaço de intercâmbio internacional, com oficinas, espetáculos e bolsas de estudo.

Cultura como política de inclusão

A retomada de programas federais como a Lei Aldir Blanc e a criação do novo Marco de Fomento à Culturareforçam a política cultural nacional. A segunda fase da Lei Aldir Blanc prevê repasses anuais a estados e municípios para manutenção de atividades artísticas, priorizando a democratização do acesso.

No cenário internacional, o IberCultura Viva — rede de 14 países — avança na valorização da cultura comunitária como ferramenta de democracia e desenvolvimento social. O Brasil, que preside o programa em 2025, deve ampliar intercâmbios culturais na América Latina.

Impactos no Tocantins

A estratégia cultural no Tocantins dialoga com um estado em que 85% dos municípios possuem manifestações culturais registradas no Cadastro Nacional de Entes e Agentes Culturais (CNEAC), mas ainda enfrentam limitações de infraestrutura e recursos. Ao investir em capacitação, preservação e difusão, o governo busca não apenas proteger tradições, mas também criar novas oportunidades econômicas.

Desafios à frente

Apesar dos avanços, persistem gargalos como a burocracia no acesso a editais, a concentração de investimentos nas capitais e a dificuldade de formação de público para eventos de maior porte. Especialistas defendem a ampliação de parcerias entre poder público, empresas e sociedade civil para garantir que a produção artística chegue a todas as regiões e camadas sociais.

“A cultura é mais do que entretenimento — é identidade, economia e cidadania. Em tempos de crise, ela se torna ainda mais necessária”, afirma a pesquisadora em economia criativa Mariana Borges, da Universidade Federal de Goiás.

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