Bolsonarismo sente mais a violência: 74% percebem aumento, mas legado do governo foi expansão do crime e das armas

Bolsonarismo sente mais a violência: 74% percebem aumento, mas legado do governo foi expansão do crime e das armas
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 23 de agosto de 2025 19

Pesquisa Genial/Quaest revela que 74% dos brasileiros conhecem alguém vítima de crime no último ano; oposição explora insegurança, mas gestão Bolsonaro deixou legado de expansão do crime organizado e aumento das armas sem reduzir homicídios

O retrato da insegurança cotidiana

O Brasil vive sob uma sensação difusa de insegurança. De acordo com a pesquisa Genial/Quaest de março de 2025, 74% dos brasileiros dizem conhecer alguém que foi vítima de roubo, furto ou assalto nos últimos 12 meses. Esse dado é central: mesmo sem ser alvo direto, o cidadão absorve a violência por meio de familiares, amigos e vizinhos.

A percepção varia por renda e região. Famílias mais pobres, com maior dependência da mobilidade urbana e do espaço público, relatam índices mais altos de proximidade com vítimas. No Sudeste e no Nordeste, a presença do crime é mais sentida, enquanto no Norte e no Centro-Oeste a ênfase está no avanço do crime organizado e da violência armada.

Esse efeito psicológico da violência, que vai além da estatística policial, é um dos fatores que sustentam a centralidade do tema na política brasileira.

Violência em alta: a visão dos bolsonaristas

Um dos dados mais relevantes do levantamento é o recorte político: 74% dos eleitores de Jair Bolsonaro em 2022 afirmam que a violência aumentou no último ano, contra 52% dos eleitores de Lula.

Esse contraste expõe duas dimensões:

  1. Polarização política: a leitura da violência é atravessada pelo voto, mostrando como o tema foi convertido em bandeira eleitoral.

  2. Contradição histórica: apesar de o eleitorado bolsonarista ser o que mais denuncia o crescimento da criminalidade, foi justamente durante o governo Bolsonaro (2019–2022) que o crime organizado mais expandiu sua presença, sobretudo na Amazônia e nas fronteiras.

O dado desmonta a narrativa de que a direita teria sido mais eficiente no enfrentamento da violência.

O balanço do governo Bolsonaro (2019–2022)

Nos quatro anos de Jair Bolsonaro, a segurança pública esteve no centro do discurso político, mas sem resultados estruturais:

  • Homicídios: os assassinatos caíram levemente em 2019 e 2020, mas voltaram a subir em 2022, ultrapassando 47 mil mortes, após ficarem em torno de 41 mil nos anos anteriores (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

  • Expansão das facções: o PCC e o Comando Vermelho ampliaram o domínio em estados do Norte e Nordeste, aproveitando a ausência de coordenação federal e a fragilidade das polícias locais.

  • Amazônia e fronteiras: houve recorde de garimpo ilegal e aumento da violência em regiões de fronteira, associada ao tráfico internacional de drogas e armas.

  • Armas de fogo: o número de registros de CACs (colecionadores, atiradores e caçadores) explodiu de 117 mil em 2018 para mais de 700 mil em 2022. Apesar do crescimento, não houve redução consistente da criminalidade.

  • Violência em escolas: 2022 foi marcado por uma onda de ataques violentos em instituições de ensino, alimentada por discursos de ódio e radicalização online.

Em resumo, Bolsonaro reforçou o discurso punitivista, mas não deixou um legado de redução estrutural da criminalidade.

Acima, o comparativo de homicídios no Brasil entre os governos Bolsonaro (2019–2022) e Lula (2023–2024), pronto para uso em web e redes sociais
Acima, o comparativo de homicídios no Brasil entre os governos Bolsonaro (2019–2022) e Lula (2023–2024), pronto para uso em web e redes sociais

Os primeiros dois anos de Lula (2023–2024)

O governo Lula adota uma linha distinta, combinando políticas sociais e repressivas:

  • Homicídios: entre 2023 e 2024, houve queda de 7% em relação a 2022, mantendo os números abaixo de 44 mil (FBSP).

  • Controle de armas: a gestão federal reduziu os registros de CACs em mais de 200 mil, endurecendo o controle sobre armas e munições.

  • Prevenção social: com o Pronasci 2, foram retomadas ações de policiamento comunitário, investimentos em juventude e prevenção da violência doméstica.

  • Crime organizado: operações integradas com PF, PRF e Forças Armadas resultaram em recorde de apreensões de cocaína nos portos brasileiros em 2024.

  • Política federativa: o governo passou a coordenar planos de segurança com governadores, em contraste com a postura de Bolsonaro, que frequentemente transferia responsabilidades.

Apesar disso, a avaliação popular ainda é dividida: 41% consideram ruim ou péssima a atuação de Lula na segurança, 34% classificam como regular e apenas 20% aprovam. A dificuldade de transformar políticas em sensação de segurança é o maior desafio do Planalto.

Justiça, polícia e guardas armadas

Dois temas aparecem como símbolos da descrença da população:

  • 78% concordam que “a polícia prende e a Justiça solta”, sinalizando desconfiança no Judiciário.

  • 65% apoiam o armamento das guardas municipais, medida autorizada pelo STF, com maior adesão entre eleitores de Bolsonaro (81%) do que de Lula (54%).

Os dados mostram como o debate público é permeado por soluções imediatistas e punitivas, mesmo que os resultados práticos dessas políticas sejam pouco consistentes.

Um problema nacional, não regional

A pesquisa revela ainda que 68% dos brasileiros consideram que a violência é um problema nacional, e não restrito a algumas regiões. Além disso, 59% atribuem ao governo federal a responsabilidade principal no combate ao crime organizado.

Isso desmonta o discurso de que a criminalidade seria apenas responsabilidade de governadores e prefeitos. A cobrança recai diretamente sobre Brasília — e qualquer governo que ignore isso, seja de esquerda ou de direita, será pressionado.

A política do medo

O que emerge da pesquisa é um cenário paradoxal:

  • O eleitorado bolsonarista é o que mais sente o aumento da violência, mas foi justamente o governo Bolsonaro que expandiu armas, fortaleceu facções e deixou sem solução estrutural os homicídios e o tráfico.

  • O governo Lula, em dois anos, mostra avanços pontuais, como queda nos assassinatos, retomada de programas sociais e recorde em apreensões de drogas, mas enfrenta o desafio de traduzir esses números em sensação concreta de segurança para a população.

A disputa política em torno da segurança pública é, no fundo, a disputa pelo uso do medo como arma eleitoral. O bolsonarismo aposta na narrativa alarmista; o lulismo busca equilibrar repressão e políticas sociais. Resta saber qual narrativa terá mais força até 2026.

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