Apneia do sono e ronco: por que acontece e como tratar o problema que afeta milhões de brasileiros
A apneia obstrutiva do sono é um distúrbio em que a via aérea superior colapsa repetidamente durante o sono, causando pausas na respiração e queda de oxigênio. A gravidade se mede pelo Índice de Apneia-Hipopneia (IAH): leve (5–14,9), moderada (15–29,9) e grave (≥30 eventos por hora), segundo diretrizes internacionais.
O tamanho do problema
No estudo epidemiológico EPISONO, realizado em São Paulo, 32,8% dos adultos avaliados preencheram critérios para síndrome da apneia obstrutiva do sono. No mundo, a Organização Mundial da Saúde estima centenas de milhões de adultos afetados.
Sintomas mais comuns
-
Ronco alto e frequente
-
Engasgos ou pausas observadas durante o sono
-
Sonolência diurna, cefaleia matinal, dificuldade de concentração
-
Noctúria, irritabilidade e queda de desempenho
Fatores de risco
Obesidade, envelhecimento, sexo masculino e menopausa aumentam o risco. Alterações craniofaciais, tabagismo, álcool noturno e obstrução nasal também contribuem. O consenso da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) reforça que se trata de uma condição prevalente e subdiagnosticada, associada a doenças cardiovasculares, metabólicas e cognitivas.
Riscos à saúde
A apneia se associa a hipertensão e fibrilação atrial, além de maior risco de acidente vascular cerebral. Também aumenta a chance de acidentes de trânsito por sonolência. O National Institutes of Health (NIH) destaca que o tratamento adequado melhora a pressão arterial, reduz sonolência e aumenta a segurança ao dirigir.
Como diagnosticar
-
Padrão-ouro: polissonografia em laboratório (Tipo I).
-
Alternativas: testes domiciliares (HSAT) podem ser usados em adultos sem comorbidades complexas, segundo a American Academy of Sleep Medicine.
-
No Brasil, o Conselho Federal de Medicina reconhece o teste domiciliar como método diagnóstico sob supervisão médica.
Tratamentos eficazes
CPAP
O CPAP é a primeira linha de tratamento para casos moderados a graves, reduzindo eventos respiratórios, sintomas e riscos cardiovasculares.
Aparelhos orais
A AASM e a AADSM recomendam dispositivos de avanço mandibular customizados para casos leves a moderados ou quando o CPAP não é tolerado.
Terapia postural
Útil em casos de apneia posicional, embora menos eficaz que o CPAP (Estudo BMJ Open Respiratory Research).
Treino miofuncional
Pesquisas brasileiras mostram que exercícios orofaríngeos podem reduzir ronco e IAH (estudo no CHEST Journal).
Perda de peso e medicamentos
A perda de peso reduz expressivamente a apneia. Em 2024, o ensaio SURMOUNT-OSA mostrou que a tirzepatida (Zepbound) diminui o IAH e o peso em adultos com obesidade e apneia moderada a grave; a FDA aprovou a indicação.
Cirurgias
O avanço maxilomandibular é a cirurgia com maior taxa de sucesso para OSA moderada a grave. Outra opção é a estimulação do nervo hipoglosso, indicada para intolerantes ao CPAP.
Acesso no Brasil
O CPAP está listado como equipamento financiável pelo Ministério da Saúde, mas não existe protocolo nacional que garanta fornecimento regular pelo SUS. Alguns estados e municípios possuem programas próprios ou disponibilizam o aparelho por via judicial.
Quando procurar ajuda
-
Ronco frequente
-
Pausas na respiração observadas
-
Sonolência ao dirigir ou no trabalho
-
Hipertensão resistente ou arritmia
-
Ganho de peso com piora do sono
A apneia do sono não é apenas um incômodo noturno. É um distúrbio com impacto direto na saúde cardiovascular, cognitiva e na segurança pública. Com diagnóstico e tratamento corretos, a qualidade de vida melhora de forma significativa.