Pesquisadores alertam: previsões hídricas no Brasil têm viés otimista e podem afetar energi
Pesquisadores da PUC-Rio e da consultoria PSR alertam que as previsões oficiais de energia natural afluente (ENA)usadas pelo setor elétrico brasileiro apresentam um viés otimista persistente, o que pode comprometer a gestão dos reservatórios e aumentar os riscos de crise energética. Um estudo publicado em outubro de 2024 na plataforma arXiv analisou 14 anos de dados e constatou que os modelos oficiais, baseados em processos autorregressivos periódicos (PAR-p e PAR-p-A), superestimam sistematicamente a entrada de água nos subsistemas Sudeste e Nordeste. Essa tendência, medida em horizontes que vão de 1 a 24 meses, mostrou-se estatisticamente significativa, indicando que não se trata de erros pontuais, mas de uma falha estrutural no modelo de previsão.
No subsistema Sudeste, responsável por mais de 70% da capacidade de armazenamento do país, o viés médio foi de +1,28 GW um mês à frente, subindo para +6,73 GW em dois anos. No Nordeste, que se tornou cada vez mais relevante na matriz elétrica com a expansão de eólicas e solares, mas ainda depende da hidreletricidade para estabilidade, o viés variou de +0,54 GW (1 mês) a +3,17 GW (24 meses). Em termos percentuais, o estudo aponta que, no Nordeste, as previsões chegaram a superestimar em mais de 100% as afluências observadas em alguns períodos. Esses desvios importam porque a ENA é o insumo central de modelos como o Newave, que planeja o uso da água em até 60 meses e define o chamado “valor da água”, fundamental para equilibrar geração hidráulica e térmica. Quando a previsão é excessivamente otimista, a operação tende a liberar mais água nos reservatórios hoje, comprometendo a segurança hídrica no futuro e levando ao acionamento forçado de usinas térmicas, mais caras e poluentes.
A importância desse alerta ganha peso diante do contexto de mudanças climáticas. O Brasil enfrentou secas severas nos últimos anos, como a de 2021, que levou ao acionamento emergencial de termelétricas e encareceu a conta de luz. Especialistas já vinham apontando que a variabilidade climática está rompendo a noção de estacionaridade hidrológica, pilar dos modelos atuais. Ao assumir que o comportamento do passado se repete de forma estável no futuro, o planejamento ignora a frequência crescente de extremos, o que amplia o risco de decisões equivocadas. A Agência Nacional de Águas (ANA) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que coordenam esse processo, têm sido pressionados a adotar métricas mais transparentes de avaliação dos modelos, incluindo monitoramento contínuo do viés e divulgação pública dos erros acumulados.
Os autores do estudo recomendam que os modelos passem a ser avaliados de acordo com sua finalidade energética e não apenas por critérios estatísticos de curto prazo. Isso significaria incluir métricas de impacto na operação, no preço da energia e na segurança do abastecimento, além de reforçar a governança independente sobre os sistemas de previsão. A discussão não é apenas técnica, mas também política e econômica: ao influenciar os preços de liquidação de diferenças (PLD) e o despacho de usinas, o viés nas previsões pode distorcer o mercado, gerar custos adicionais para consumidores e comprometer a confiança no sistema elétrico.
Em um país onde cerca de 61% da eletricidade ainda vem de hidrelétricas, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), falhas persistentes nas previsões hídricas não são apenas um detalhe estatístico: são um risco estrutural para toda a matriz energética. Diante disso, cresce a pressão para que o Brasil adapte suas ferramentas de planejamento à nova realidade climática e abandone a postura de otimismo excessivo que, como mostra a pesquisa, já dura mais de uma década.