Opinião do Leitor: COPOM acerta ao manter Selic diante de pressões inflacionárias — análise de Roberto Simioni
No cenário atual, embora o IPCA tenha registrado variações negativas recentes, o núcleo da inflação, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, permanece pressionado, indicando que o processo de desinflação ainda não é estrutural. Considerando que a taxa de juros deve responder não apenas ao desvio da inflação em relação à meta, mas também ao hiato do produto. Além disso, o mercado de trabalho segue aquecido, com a taxa de desemprego em patamares historicamente baixos. De acordo com a curva de Phillips ampliada, essa situação pode gerar pressões inflacionárias futuras, especialmente em serviços, cuja precificação é mais sensível à dinâmica salarial. A persistência de uma inflação de serviços elevada sugere que a economia opera próxima ou acima do seu produto potencial, o que reforça a necessidade de uma postura monetária restritiva.
Outro ponto relevante é a ancoragem das expectativas. A teoria dos regimes de política monetária destaca que a credibilidade do Banco Central é fundamental para a eficácia da política monetária. Cortes prematuros na taxa Selic poderiam sinalizar complacência, desancorando as expectativas de inflação futura e exigindo posteriormente uma resposta mais agressiva. A literatura sobre forward guidance também indica que a comunicação do BC deve ser consistente com o compromisso de convergência da inflação à meta, o que implica manter os juros elevados enquanto os riscos permanecem assimétricos.
Por fim, o contexto fiscal contribui para a cautela. A dominância fiscal, pode ser um limitador da eficácia da política monetária se houver dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas. Nesse ambiente, a manutenção da taxa de juros elevada atua como um contrapeso à expansão fiscal, preservando a estabilidade macroeconômica.
Dessa forma, a ação do COPOM à luz da teoria econômica e dos dados correntes, foi correta em optar pela manutenção da taxa Selic, reforçando o compromisso com a estabilidade de preços e a credibilidade da política monetária.