Liderança feminina no mercado de trabalho: como a linguagem ajuda a combater o assédio
A comunicação estratégica tem se consolidado como ferramenta de liderança no ambiente corporativo, sobretudo entre as mulheres. Em um mercado ainda marcado por desigualdades, a forma de se expressar pode ser determinante não apenas para conquistar respeito, mas também para se proteger de situações de assédio.
O professor e advogado especialista em redação jurídica e normativa, Carlos André Pereira Nunes, referência nacional no ensino de linguagem clara, afirma que a escolha das palavras é capaz de mudar o lugar social ocupado pelas mulheres dentro das empresas. “A linguagem não apenas reflete nosso lugar, ela pode redefini-lo. Quando as mulheres comunicam com clareza estratégica, não apenas falam: lideram”, explica.
Assédio segue recorrente no ambiente de trabalho
A Pesquisa Mapa do Assédio no Brasil 2024, conduzida pela KPMG, mostra a dimensão do problema. Nos últimos 12 meses, 30% dos profissionais brasileiros relataram ter sofrido assédio, sendo 41% dos casos no ambiente de trabalho. O assédio moral é o mais recorrente (46%), seguido pelo assédio sexual (14%). A pesquisa aponta ainda que 92% das vítimas não denunciaram os abusos, principalmente por medo de retaliação.
Outro levantamento, realizado pela Catho sob o título Mulheres 2024 – Desafios, tendências e comportamento da mulher no mercado de trabalho, reforça esse cenário: 78% das mulheres brasileiras já enfrentaram assédio no trabalho. Em 21% dos casos, a denúncia não gerou qualquer consequência prática.
A linguagem como escudo e como liderança

Para Carlos André, a comunicação clara pode atuar ao mesmo tempo como proteção e como instrumento de liderança. Ele exemplifica com estratégias simples: diante de uma interrupção em reuniões, responder com firmeza “Gostaria de concluir meu ponto”; ao iniciar uma apresentação, usar frases como “Meu objetivo hoje é…” para estabelecer clareza de propósito; e diante de comentários inapropriados, reagir com uma pergunta objetiva: “Poderia explicar como isso contribui para nossa pauta?”.
Esses mecanismos linguísticos ajudam a reduzir a vulnerabilidade e a fortalecer a presença da mulher em espaços de poder. “Quando uma mulher organiza os argumentos, define a pauta e usa o tempo dela com propósito, ela passa do status de participante ao de protagonista”, resume.
Mudança cultural
Mas, segundo o especialista, não se trata apenas de escolher palavras: há um componente de postura. “Não é apenas o que você diz, mas como se posiciona ao dizer. A linguagem clara é armadura e passaporte: protege e abre portas”, avalia. Reformular frases comuns — como trocar “se não for incômodo” por “antes de prosseguirmos, preciso concluir meu ponto” — é uma forma de comunicar autoridade.
O impacto da comunicação estratégica
O uso consciente da linguagem, avalia o professor, não apenas garante espaço de fala, mas transforma o ambiente corporativo em si. Ao conquistar autoridade e ocupar seu tempo com clareza, as mulheres tornam-se menos suscetíveis a práticas de exclusão e assédio.
“A comunicação estratégica é capaz de transformar reuniões em palco de protagonismo. Mais do que se defender, é uma forma de ocupar o lugar que já é delas por direito”, conclui Carlos André.