Trump bloqueia US$ 26 bilhões a Estados democratas durante o shutdown; transporte em Nova York perde US$ 18 bilhões e programas de energia limpa sofrem corte de até US$ 8 bilhões

Trump bloqueia US$ 26 bilhões a Estados democratas durante o shutdown; transporte em Nova York perde US$ 18 bilhões e programas de energia limpa sofrem corte de até US$ 8 bilhões
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 2 de outubro de 2025 8

A administração de Donald Trump congelou US$ 26 bilhões em repasses federais, afetando diretamente Estados governados por democratas. O bloqueio ocorre durante o shutdown do governo federal, iniciado em 1º de outubro, e já considerado o mais grave desde 2019.

Segundo o Poder360, o pacote inclui US$ 18 bilhões para obras de transporte em Nova York, como o Hudson Tunnel (Gateway Program) e a Second Avenue Subway, além de US$ 7,6 a 8 bilhões voltados a energia limpaem 16 Estados, entre eles a Califórnia e Illinois, como detalhou a Reuters.

No setor energético, o PBS NewsHour destacou que mais de 220 projetos de hidrogênio, baterias e redes inteligentes foram suspensos. Em Nova York, autoridades locais alertaram que a suspensão dos recursos pode atrasar cronogramas, encarecer obras e gerar desmobilização de trabalhadores.

Disputa legal e risco de impasse

O congelamento levanta dúvidas sobre a compatibilidade com a Impoundment Control Act (1974), que restringe a retenção de verbas já aprovadas pelo Congresso. Pela lei, o Executivo pode sugerir cortes ou adiamentos, mas o Legislativo precisa referendar. Caso contrário, os fundos devem ser liberados em até 45 dias. Juristas avaliam que a manobra pode ser questionada judicialmente.

Impactos econômicos imediatos

  • Nova York: o bloqueio de US$ 18 bilhões compromete obras estratégicas de transporte, com impacto sobre cadeias de construção pesada, aço e engenharia.

  • Energia limpa: cortes de US$ 7,6 a 8 bilhões afetam hubs de hidrogênio e tecnologias verdes, travando metas de transição energética em Estados democratas.

  • Emprego público: cerca de 750 mil servidores federais estão afastados, o que afeta serviços, licenças e inspeções.

Reações políticas

Para democratas, trata-se de uma forma de “chantagem política” que pune cidadãos de Estados adversários. Republicanos mais moderados temem que a medida amplie a crise de confiança em meio às negociações para reabrir o governo.

O congelamento de US$ 26 bilhões amplia os danos do shutdown porque atinge setores com alto efeito multiplicador econômico. Obras de transporte urbano e ferroviário, como o Gateway Program, têm impacto imediato em empregos, consumo e arrecadação estadual. A paralisação reduz a eficiência: contratos precisam ser renegociados, equipes se desmobilizam e os custos sobem.

Na energia limpa, os cortes sinalizam instabilidade regulatória. Projetos de hidrogênio e redes dependiam de financiamento federal para atrair investimentos privados. Ao travar os repasses, a Casa Branca fragiliza a confiança de investidores, que podem redirecionar recursos para regiões mais estáveis, como União Europeia e Canadá.

Do ponto de vista jurídico, a tensão com a Impoundment Control Act abre risco de judicialização. Caso os tribunais considerem a medida uma retenção irregular, os recursos terão de ser desbloqueados às pressas, com reprogramações caras e atrasos maiores.

Camila Rezende, economista e analista de economia política, disse em exclusividade ao Diário Tocantinense que o corte promovido pela administração Trump atinge setores de infraestrutura e transição energética que têm efeito multiplicador elevado sobre a economia. “Cada dólar investido em transporte urbano e ferroviário retorna em forma de empregos, renda e arrecadação, ao mobilizar cadeias de insumos como aço, cimento e engenharia pesada. Na energia limpa, o bloqueio interrompe engrenagens de inovação e investimentos privados que dependiam de sinalização estável do governo federal”, explicou.

Para Rezende, a situação nos Estados Unidos lembra episódios anteriores de paralisia fiscal. Ela recorda que, no início dos anos 1980, o governo Ronald Reagan enfrentou cortes emergenciais que afetaram obras de infraestrutura e pesquisas energéticas, o que aumentou os custos de retomada e gerou incerteza entre investidores estrangeiros. Mais recentemente, no shutdown de 2019, parte dos recursos destinados a modernização de aeroportos e programas ambientais ficou temporariamente congelada, gerando atrasos que até hoje se refletem em contratos e custos adicionais. “Essas experiências mostram que mesmo paralisações de curto prazo deixam marcas de longo prazo, especialmente quando atingem setores estratégicos”, destacou.

Rezende acrescenta que, além do impacto econômico imediato, o fator jurídico é determinante. Se os tribunais entenderem que houve violação da Impoundment Control Act, será necessário descongelar os recursos às pressas, o que cria um “efeito pingue-pongue” de liberações e bloqueios. “Esse ambiente de insegurança regulatória encarece o custo de capital e pode afastar investidores internacionais, que passam a enxergar países como Canadá, União Europeia e até o Brasil como destinos mais previsíveis para aplicar recursos em infraestrutura e energia renovável”, afirmou a economista.

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