Casos suspeitos de intoxicação por metanol passam de 110 no país; Hungria é caso emblemático
O número de notificações por suspeita de intoxicação por metanol chegou a 113 casos no Brasil até esta sexta-feira (3), segundo o Ministério da Saúde. Do total, 11 foram confirmados e 102 permanecem em investigação. O estado de São Paulo concentra a maior parte: 101 registros, incluindo os 11 já confirmados.
Além de São Paulo, também houve notificações em Pernambuco (6 casos em análise), Bahia (2), Distrito Federal (2), Paraná (1) e Mato Grosso do Sul (1). O surto já contabiliza 12 mortes, sendo uma confirmada em São Paulo e outras 11 em investigação, distribuídas entre SP, PE, BA e MS.
Hungria: quadro estável após risco à visão
Entre os casos de maior repercussão está o do rapper Hungria, de 34 anos, que permanece internado no hospital DF Star, em Brasília. Ele deu entrada com sintomas como visão turva, cefaleia e náusea, mas, segundo coletiva médica, não corre mais risco de perder a visão.
“Ele não vai ter nenhuma sequela. Iniciou com uma turvação visual no começo, mas como tudo foi feito muito rápido, felizmente, ele não ficou com sequelas, que era nosso maior medo”, afirmou o Dr. Leandro Machado.
Hungria foi submetido a hemodiálise para remover o metanol do organismo e recebeu etanol farmacêutico oral, procedimento considerado eficaz para impedir a formação de ácido fórmico — substância que pode causar danos irreversíveis à visão. O cantor havia se apresentado no Boteco da Villa, em São Bernardo do Campo (SP), local interditado após dois frequentadores também apresentarem sintomas de intoxicação.
Novos registros pelo país
No Mato Grosso do Sul, um jovem de 21 anos morreu após ingestão de bebida suspeita em Campo Grande. No Paraná, um idoso de 60 anos segue internado em estado grave após consumo de destilados adulterados.
Metanol: entenda os riscos
O metanol (álcool metílico) é usado na indústria, mas é altamente tóxico para consumo humano. Pequenas quantidades já podem ser fatais: cerca de 10 mL podem causar cegueira permanente, segundo o Manual de Toxicologia. Quando metabolizado, o metanol gera formaldeído e ácido fórmico, substâncias que atacam o sistema nervoso central e a retina.
Os sintomas podem ser confundidos com embriaguez: náuseas, vômitos e tontura. Horas depois, surgem sinais específicos como visão turva, manchas na vista e dificuldade respiratória, podendo evoluir para coma e morte se não houver tratamento imediato.
Medidas do governo
O Ministério da Saúde determinou a notificação imediata de todos os casos suspeitos e ativou uma sala de situação para monitorar o avanço do surto. Já foram adquiridas 4,3 mil ampolas de etanol farmacêutico e há previsão de compra de 150 mil novas unidades, suficientes para 5 mil tratamentos, além de negociações internacionais para obter o fomepizol, antídoto mais eficaz contra intoxicação por metanol.
A Anvisa acionou agências reguladoras de países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, China e Austrália para reforçar os estoques de insumos e medicamentos.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que a crise é atípica e exige coordenação nacional. “É fundamental proteger a população contra bebidas adulteradas e garantir acesso rápido ao tratamento”, afirmou.