Especial | O que significa a Rússia pedir o fim do embargo dos EUA a Cuba
Na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, o chanceler russo Sergey Lavrov pediu o “fim imediato e incondicional” do embargo dos Estados Unidos a Cuba. O discurso foi mais que um gesto diplomático em favor da ilha caribenha: foi uma mensagem direta a Washington, em um momento em que Moscou enfrenta sanções ocidentais e busca ampliar sua presença no Caribe, região historicamente considerada área de influência norte-americana.
Como nasceu o embargo
O embargo tem origem na Guerra Fria.
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Em 1958, ainda sob Batista, os EUA decretaram um embargo de armas a Cuba.
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Após a Revolução de 1959 e a nacionalização de empresas americanas, o governo Eisenhower suspendeu exportações em 1960.
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Em 1961, o Congresso autorizou um embargo total, consolidado em 1962 por John F. Kennedy, no mesmo ano da Crise dos Mísseis.
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Em 1963, regulamentos do Departamento do Tesouro congelaram ativos cubanos nos EUA, estabelecendo a base legal que perdura até hoje.
Nos anos 1990, o embargo foi endurecido com duas leis centrais: a Lei Torricelli (1992), que ampliou sanções a subsidiárias americanas no exterior, e a Lei Helms-Burton (1996), que extraterritorializou as punições e vinculou sua suspensão a mudanças políticas em Cuba. Essa última inclui o polêmico Título III, que permite ações judiciais contra empresas estrangeiras que explorem bens expropriados após 1959.
O embargo hoje
Na prática, o embargo é um emaranhado de normas que limitam comércio, finanças e turismo.
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Empresas americanas não podem negociar com Cuba, salvo exceções específicas.
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O turismo é vetado: cidadãos dos EUA só podem viajar enquadrados em 12 categorias especiais, como visitas familiares ou projetos jornalísticos.
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Vendas de alimentos e medicamentos são permitidas, mas sob regras complexas e pagamentos antecipados.
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Desde 2019, com a ativação do Título III da Lei Helms-Burton, empresas estrangeiras também enfrentam risco jurídico ao operar em ativos confiscados, o que gera insegurança a investidores europeus e canadenses.
Impactos do embargo
O governo cubano estima perdas acumuladas de centenas de bilhões de dólares. O embargo limita acesso a crédito internacional, encarece transações e cria dificuldades logísticas. A ONU reconhece que as sanções agravam a crise da ilha, embora especialistas ressaltem que a deterioração da economia cubana também decorre de fatores internos: baixa produtividade, queda do turismo, má gestão e dependência de importações.
Para os EUA, o embargo é apresentado como um mecanismo de pressão para mudanças políticas e de respeito aos direitos humanos. Já para a comunidade internacional, é visto como uma medida unilateral e obsoleta: em 2024, 187 países votaram contra o embargo, restando apenas EUA e Israel a favor de sua manutenção.
Vozes de especialistas
Paul Webster Hare, ex-embaixador britânico em Havana, afirma que a Rússia usa o tema como palco simbólico:
“Moscou vê em Cuba não apenas uma aliada histórica, mas também uma vitrine para desafiar os EUA em sua própria região. O gesto de Lavrov é menos sobre Havana e mais sobre mostrar que a Rússia ainda tem voz no Caribe.” (Boston University)
William LeoGrande, professor da American University, observa que muitas promessas russas não se concretizam:
“Moscou historicamente promete mais do que consegue entregar em Cuba. Ainda assim, o simples anúncio de novos investimentos já serve para sinalizar presença e desafiar a narrativa americana.” (Reuters)
Carmelo Mesa-Lago, economista cubano radicado nos EUA, enfatiza o impacto interno:
“O embargo existe, mas a crise cubana também é fruto de problemas domésticos. Ao depender demais de subsídios externos, o país não implementou reformas que poderiam ter ampliado sua produtividade, como fizeram China e Vietnã.” (El País)
O interesse russo em detalhe
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Geopolítica – Ao pedir o fim do embargo, Moscou busca isolar os EUA em fóruns multilaterais e reforçar sua imagem como defensora do multilateralismo contra sanções unilaterais (TASS).
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Presença militar – Exercícios navais russos com fragatas e submarinos no Caribe em 2025 lembram a Guerra Fria e funcionam como mensagem estratégica (AP News).
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Infraestrutura logística – A Rússia negocia acesso ao Porto de Mariel para criar um hub de distribuição para a América Latina.
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Energia e agricultura – Moscou garante contratos de petróleo, trigo e fertilizantes, fortalecendo a dependência cubana.
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Sistema financeiro paralelo – O Novikombank abriu escritório em Havana, facilitando transações em rublos.
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Apoio político mútuo – Cuba reforça a voz russa em votações internacionais, enquanto Moscou sustenta a narrativa contra o embargo (Anadolu Agency).
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Mão de obra militar – Relatos sugerem envio de cubanos para lutar na Ucrânia em contratos militares (Heritage Foundation).
O que está em jogo
O embargo a Cuba já não é apenas uma política bilateral: tornou-se símbolo da disputa global entre Washington e seus rivais. Para os EUA, sua manutenção é questão de coerência interna e pressão política. Para Cuba, representa isolamento e dificuldades materiais. Para a Rússia, é uma oportunidade de projetar força em pleno Caribe, contestando a hegemonia americana e abrindo espaço para parcerias econômicas e militares.
Em resumo, o pedido russo não muda a realidade jurídica do embargo, que depende do Congresso e dos tribunais americanos. Mas funciona como instrumento de propaganda, amplia a cooperação bilateral Moscou–Havana e reaquece um tabuleiro geopolítico que parecia adormecido desde o fim da Guerra Fria.