Trump mira o café brasileiro, mas crise é maior para os EUA: preços disparam e torrefadores sofrem

Trump mira o café brasileiro, mas crise é maior para os EUA: preços disparam e torrefadores sofrem
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 3 de outubro de 2025 1

Em agosto de 2025, os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras de café. A medida, parte do pacote “tarifário 2.0” do governo Donald Trump, foi anunciada como estratégia para proteger produtores locais e pressionar parceiros comerciais. Mas os efeitos já mostram um resultado inesperado: enquanto o Brasil redireciona parte de sua produção para outros mercados, quem mais sofre são os consumidores americanos, que enfrentam aumento nos preços e falta de cafés especiais.

O impacto imediato no Brasil foi relevante: em agosto, as exportações caíram para 3,1 milhões de sacas de 60 kg, uma retração de 17,5% em relação a 2024. Para os EUA, a queda foi ainda mais drástica: –46% nos embarques em agostoe –20% adicionais em setembro.

Apesar disso, exportadores brasileiros conseguiram redirecionar parte da produção para a Europa e a Ásia, principalmente para Alemanha, Japão e China. Já os Estados Unidos, dependentes do café brasileiro para compor cerca de 20% do seu consumo anual, enfrentaram preços em alta: supermercados e cafeterias reportaram elevação de até 30% nos cafés especiais e 20% nos blends convencionais.

Os cafés premium brasileiros, presentes em cafeterias de Nova York, Los Angeles e São Francisco, praticamente desapareceram do mercado americano. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), houve retração de até 70% nos embarques de cafés especiais para os EUA em agosto.

Enquanto o Brasil encontrou espaço no Japão e na Europa para absorver parte desses microlotes, torrefadores americanos foram obrigados a buscar origens alternativas, de menor qualidade ou com custo mais alto, o que encareceu ainda mais a xícara no varejo.

A safra brasileira de 2025/26 deve alcançar 65 milhões de sacas, sendo 40,9 milhões de arábica e 24,1 milhões de robusta (conilon). Essa expansão dá ao Brasil poder de barganha no mercado internacional.

Outros fornecedores — como Colômbia, Vietnã e Peru — aumentaram participação nos EUA, mas não conseguiram suprir a lacuna do Brasil sem elevar preços. Em nota publicada pela Revista Agronegócios, o presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Silas Brasileiro, foi categórico:

“O recente anúncio de aumento das tarifas por parte do governo americano atinge toda a cadeia produtiva do café no Brasil e impõe custos adicionais ao consumidor norte-americano, com reflexos inflacionários que afetam diretamente o poder de compra da população dos Estados Unidos.”

Ou seja, além de prejudicar produtores brasileiros, a decisão repercute diretamente no bolso dos americanos, transformando um insumo culturalmente essencial — o café — em alvo de inflação.

Pressão interna no Brasil

No campo brasileiro, os efeitos também são sentidos: exportadores seguram estoques, produtores sofrem com liquidez e o crédito rural já enfrenta pressão. No entanto, a capacidade de diversificação para outros mercados suavizou o impacto.

A economista agrícola Carla Bacha (USP/ESALQ) alerta: “o produtor médio é o elo mais frágil. Sem liquidez, fica refém de prorrogações bancárias e de programas emergenciais. O risco é transformar um choque externo em crise social no interior”.

No Congresso americano, parlamentares tentam incluir o café em listas de exceção tarifária, mas sem avanço até agora. O Itamaraty intensificou o lobby diplomático e o setor privado aposta em três frentes:

  • diversificação de mercados (Alemanha, Japão e China em destaque);

  • expansão do robusta;

  • pressão internacional contra a tarifa.

Exportações brasileiras de café – Agosto 2025

  • Total: 3,1 milhões de sacas

  • Variação: –17,5% vs 2024

  • Queda para os EUA: –46%

  • Nova queda em setembro: –20%

Principais destinos do café brasileiro (2024)

  • Europa (Alemanha, Itália, Bélgica): 42%

  • EUA: 19%

  • Ásia (Japão, China, Coreia): 12%

  • Outros: 27%

Safra prevista 2025/26 (USDA)

  • Total: 65 milhões de sacas

  • Arábica: 40,9 milhões

  • Robusta: 24,1 milhões

Linha do Tempo

  • 2024: Brasil exporta US$ 1,94 bi em café para os EUA.

  • Agosto/2025: Trump anuncia tarifa de 50% sobre o café brasileiro.

  • Agosto/2025: Exportações caem –46% para os EUA; preços disparam no varejo americano.

  • Setembro/2025: Nova queda nos embarques; torrefadores recorrem a origens mais caras.

  • Outubro/2025: Pressão de congressistas e cafeterias americanas contra a tarifa.

 

O tarifaço de 50% atingiu o Brasil, mas o efeito foi ainda mais devastador para os Estados Unidos. O Brasil, com sua capacidade de diversificação, encontrou novos compradores. Já os consumidores americanos, sem alternativas equivalentes, passaram a pagar mais caro por cafés de menor qualidade. O gesto político de Trump acabou se transformando em um tiro no pé: em vez de fragilizar o Brasil, expôs o próprio mercado americano a inflação e insatisfação popular.

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