Venezuela, Colômbia e América Latina: o fluxo migratório que redefine o Brasil
O Brasil atingiu em 2024 a marca de mais de 600 mil migrantes latino-americanos, segundo dados do Ministério da Justiça e da ONU. Desse total, a maioria é composta por venezuelanos e colombianos que buscam refúgio de crises econômicas e políticas em seus países.
O movimento, concentrado nas regiões Norte e Centro-Oeste, está transformando o perfil populacional de cidades como Boa Vista, Pacaraima e Manaus, que se tornaram portas de entrada e centros de acolhimento.
De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o Brasil recebeu 194.331 novos migrantes em 2024, dos quais mais de 70% são latino-americanos, sobretudo venezuelanos. (Agência Brasil)
Desde 2015, o número acumulado de entradas da Venezuela ultrapassa 568 mil pessoas, segundo o UNICEF. (UNICEF Brasil)
O governo brasileiro também registrou 454.165 pedidos de refúgio entre 2015 e 2024 — sendo 266.862 de venezuelanos, ou seja, quase 59% do total nacional. (ACNUR)
A nova rota latino-americana
A crise humanitária da Venezuela e as tensões políticas na Colômbia levaram à criação de uma rota migratória contínua entre os países andinos e o Brasil.
O Relatório Refúgio em Números (9ª edição), do Ministério da Justiça, mostra que a Colômbia já representa 1,8% dos pedidos de refúgio no país, número pequeno, mas crescente desde 2022. (PortaldeImigração)
Além de venezuelanos e colombianos, também chegam ao Brasil haitianos, bolivianos e peruanos, atraídos por empregos em obras e no agronegócio, principalmente em Roraima, Mato Grosso e Goiás.
Entre os povos indígenas, destaca-se a migração dos Warao, grupo oriundo do delta do Orinoco, que cruzou a fronteira em busca de abrigo e hoje enfrenta desafios severos de integração e vulnerabilidade social. (ONU Brasil)
Cidades em transformação
O impacto mais visível da migração está nas cidades de fronteira e nas capitais amazônicas.
Em Boa Vista (RR), cerca de 25% da população atual é composta por migrantes, segundo dados da Operação Acolhida, coordenada pelo Exército Brasileiro em parceria com a ACNUR e a OIM. (Operação Acolhida)
A operação atua desde 2018 com três eixos principais:
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Ordenamento da fronteira (identificação e triagem),
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Acolhimento e abrigamento humanitário,
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Interiorização voluntária — processo que transfere migrantes para outras cidades brasileiras, reduzindo a pressão sobre Roraima.
A capital do Amazonas, Manaus, vive dinâmica semelhante: com abrigos lotados e aumento da população migrante nas ruas, o município passou a integrar o programa de interiorização para redistribuir famílias venezuelanas.
Em Goiás e Tocantins, há registros crescentes de trabalhadores migrantes empregados em serviços, construção civil e lavouras — com destaque para migrantes interiorizados de Boa Vista e Manaus.
Pressão sobre serviços públicos e economia
O fluxo migratório tem impacto direto na saúde, educação e habitação.
Hospitais de Roraima relatam aumento de até 40% nos atendimentos de urgência, enquanto escolas municipais em Boa Vista e Pacaraima receberam mais de 16 mil estudantes migrantes em 2024, segundo o Ministério da Educação. (Agência Brasil)
Por outro lado, a presença migrante também movimenta a economia local: segundo levantamento da Organização Internacional para as Migrações (OIM), cada R$ 1 gasto com acolhimento em Roraima gera R$ 1,55 de retorno econômico na forma de consumo e serviços. (OIM Brasil)
Integração e desafios políticos
Apesar dos esforços humanitários, o Brasil ainda carece de políticas permanentes de integração.
O processo de refúgio e regularização pode levar meses, mantendo muitos migrantes em situação irregular.
A falta de coordenação entre União, estados e municípios também dificulta o planejamento das ações — especialmente nas áreas de moradia, emprego e assistência social.
O ACNUR e o Ministério dos Direitos Humanos têm defendido a ampliação dos programas de interiorização e a criação de centros regionais de acolhimento em todas as capitais do Norte.
Para o organismo, o Brasil é “um exemplo de resposta humanitária solidária”, mas precisa transformar políticas emergenciais em estruturas permanentes de integração. (acnur.org)
Um retrato do novo Brasil latino-americano
O fluxo migratório vindo da Venezuela, Colômbia e outros países vizinhos redefine o mosaico cultural e social brasileiro.
Nas ruas de Roraima, no comércio de Manaus e nas construções de Goiânia, o português convive com o espanhol e o warao, e histórias de fuga e recomeço compõem a nova paisagem humana do país.
Enquanto o continente vive tensões políticas e desigualdades persistentes, o Brasil se consolida como destino de esperança — e desafio — na América do Sul contemporânea.