A Usurpadora em A Fazenda levanta debate sobre xenofobia e o retrato do preconceito cultural no Brasil

A Usurpadora em A Fazenda levanta debate sobre xenofobia e o retrato do preconceito cultural no Brasil
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 7 de outubro de 2025 15

A entrada da atriz Gabriela Spanic, conhecida mundialmente pelo papel em A Usurpadora, no elenco de A Fazenda 2025 provocou uma onda de comentários nas redes sociais. Parte do público celebrou a presença de uma estrela latina em um dos realities mais assistidos do país. Outra parcela, no entanto, reagiu com comentários de cunho xenofóbico, reproduzindo estereótipos sobre artistas estrangeiros que tentam construir carreira no Brasil.

Durante uma discussão com o participante Fernando, Spanic acusou o colega de discriminação por nacionalidade: “Esse senhor está cometendo atos de xenofobia contra mim”, afirmou em vídeo exibido pelo programa.
O episódio foi amplamente repercutido por portais de entretenimento como o UOL Splash e o Notícias da TV, que destacaram o embate como o momento de maior tensão da edição até agora.
A equipe da atriz afirmou que estuda recorrer à Justiça, com base na Lei nº 7.716/1989, que criminaliza atos de discriminação e preconceito por origem.

Xenofobia em alta nas redes sociais

De acordo com dados do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, o Brasil registrou aumento de 874% nas denúncias de xenofobia online entre 2021 e 2022 — salto de 1.097 para 10.686 casos.
Nos últimos cinco anos, foram 25,9 mil registros de xenofobia digital, segundo levantamento da Agência Brasil.
Estudo conduzido pelo ObservaDH, o Observatório Nacional de Direitos Humanos, aponta que discursos xenofóbicos costumam se misturar a insultos raciais e de classe — reforçando preconceitos interligados. (Agência Gov)

Esses números confirmam o que pesquisadores já vêm alertando: a xenofobia deixou de ser um tema restrito à imigração e passou a ocupar espaço central no debate digital, inclusive em ambientes de entretenimento.

Especialistas analisam o caso

Para a socióloga Juliana Guimarães, pesquisadora do Observatório de Mídia e Comunicação da UFRJ, episódios como o de A Fazenda revelam uma tensão latente entre o sentimento de identidade nacional e a dificuldade de acolher a diferença.

“Reality shows funcionam como microcosmos sociais. Quando o público reage com hostilidade a uma figura estrangeira, está reproduzindo dinâmicas de poder que transcendem o jogo”, explica a pesquisadora.

O psicólogo social Caio Menezes, da Universidade de Brasília, destaca que o ódio à diferença costuma ser reforçado pelo ambiente digital:

“As redes amplificam discursos extremos. Quando o alvo é uma figura pública estrangeira, há uma legitimação simbólica para o preconceito.”

A professora María del Pilar Rojas, especialista em cultura latino-americana da USP, lembra que a América Latina sempre foi marcada por fluxos migratórios intensos — e que o Brasil, embora miscigenado, ainda lida mal com o estrangeiro que não vem da Europa.

“Há uma xenofobia seletiva. Enquanto o europeu é visto como referência cultural, o latino é tratado como intruso.”

O papel da mídia e das plataformas

Estudos do HateBR Project mostram que conteúdos com conotação xenofóbica em português tendem a viralizar até 12 vezes mais quando associados a polêmicas televisivas.
O fenômeno repete o padrão de 2020, quando o público reagiu de forma semelhante à presença da angolana Luanda Martins em outro reality show.
A diferença, segundo especialistas, é que agora o debate ganha densidade e visibilidade, exigindo respostas institucionais das emissoras e das plataformas.

O Projeto de Lei 2630/2020, conhecido como PL das Fake News, em tramitação no Congresso, prevê responsabilização das plataformas por conteúdos de ódio — incluindo manifestações de xenofobia. (Senado Federal)

Caminhos para a convivência multicultural

O episódio com A Usurpadora em A Fazenda reabre uma discussão essencial: a necessidade de ampliar o debate sobre diversidade e empatia em um país que historicamente se define pela mistura, mas ainda reage com resistência ao “outro” estrangeiro.

Para Juliana Guimarães, é papel da mídia e das instituições formadoras construir uma pedagogia do respeito:

“O problema não é só individual, é estrutural. É preciso educar para a convivência, não apenas punir o preconceito.”

Enquanto Gabriela Spanic segue confinada, o Brasil assiste a mais um espelho de si mesmo: um retrato das contradições entre acolhimento e exclusão, entre a telenovela que eternizou A Usurpadora e a realidade que insiste em afastá-la.

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