Queda de braço entre o MP e Virginia Fonseca: Justiça paralisa lives da WePink e impõe multa de R$ 100 mil

Queda de braço entre o MP e Virginia Fonseca: Justiça paralisa lives da WePink e impõe multa de R$ 100 mil
O Ministério Público de Goiás (MPGO) ajuizou uma ação civil pública com pedido de tutela de urgência contra a empresa Wepink – Savi Cosméticos Ltda., ligada à influenciadora Virgínia Fonseca, e os sócios Thiago Stabile e Chaopeng Tan, após o acúmulo de mais de 90 mil reclamações registradas no site Reclame Aqui somente em 2024 e 340 denúncias formais no Procon Goiás entre 2024 e 2025.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 15 de outubro de 2025 15

Em ação civil pública, o Ministério Público de Goiás acusa a marca de cosméticos da influenciadora de práticas abusivas e publicidade enganosa. Decisão judicial suspende transmissões até comprovação de estoque e determina criação de atendimento humano.

A Justiça de Goiás determinou a suspensão imediata das lives de venda da WePink, marca de cosméticos fundada pela influenciadora Virginia Fonseca, após constatar indícios de práticas comerciais abusivas. A decisão, assinada pela juíza Tatianne Marcella Mendes Rosa Borges Mustafa, da 14ª Vara Cível de Goiânia, atendeu a pedido do Ministério Público de Goiás (MPGO) e impôs multa de R$ 100 mil por live transmitida em descumprimento à liminar.

A medida é considerada uma das mais duras já aplicadas contra uma empresa do setor de beleza digital e inaugura um conflito jurídico inédito entre o poder público e o mercado de marketing de influência.

Quem é Virginia Fonseca e o peso da influência

Aos 25 anos, Virginia Fonseca é uma das maiores influenciadoras do país, somando mais de 45 milhões de seguidoresnas redes sociais. Empresária, apresentadora e figura central da nova economia digital, ela fundou a WePink em 2022 ao lado do marido, o cantor Zé Felipe, e dos sócios Thiago Stabile e Chaopeng Tan.

O negócio rapidamente se tornou um fenômeno do live commerce, modelo de vendas transmitidas ao vivo que mistura entretenimento e apelos de consumo instantâneo. Em 2023, o faturamento da marca superou R$ 200 milhões, segundo o portal Metrópoles.

Para o Ministério Público, porém, esse sucesso se apoiou em práticas que ferem o Código de Defesa do Consumidor, explorando a relação de confiança entre a influenciadora e seus seguidores. A promotoria afirma que o uso da imagem de Virginia teria servido como gatilho psicológico de compra, induzindo o público a adquirir produtos sem garantia de entrega.

O que motivou a ação do MP

O MPGO abriu investigação após receber uma onda de denúncias de consumidores relatando atrasos, reembolsos negados e ausência de atendimento humano. Entre 2024 e 2025, foram registradas 340 queixas formais no Procon-GO e mais de 90 mil reclamações no site Reclame Aqui, de acordo com a CNN Brasil.

As reclamações apontam desde vendas sem estoque disponível até atendimentos automatizados que não resolviam os problemas. Em uma das transmissões de 2024, o sócio Thiago Stabile chegou a admitir publicamente que a empresa vendeu produtos sem disponibilidade imediata, alegando “crescimento rápido demais” e falhas na cadeia de suprimentos — declaração usada pelo MP como prova de publicidade enganosa e má-fé contratual.

Decisão judicial impõe sanções e novos deveres

Com base nas provas apresentadas, a Justiça concedeu tutela de urgência determinando que a WePink suspenda imediatamente todas as transmissões de vendas até comprovar documentalmente a existência de estoque. A liminar também estabelece multa de R$ 100 mil por live irregular, a criação de um canal de atendimento humano (SAC)com resposta em até 24 horas e a entrega ou reembolso automático de todos os pedidos pendentes, segundo o Poder360.

A magistrada também ordenou que a empresa apresente ao MP, em até dez dias, um relatório com todas as reclamações registradas desde o início das operações. Caso as determinações não sejam cumpridas, a promotoria poderá requerer bloqueio de ativos financeiros da empresa e de seus sócios.

O silêncio da influenciadora e a resposta da empresa

Até a noite de segunda-feira, Virginia Fonseca e a WePink não haviam se manifestado publicamente sobre a decisão judicial. Em nota anterior, a empresa atribuiu os atrasos a “problemas de fornecimento de embalagens” e afirmou estar “revisando seus processos internos para melhorar a experiência do consumidor”.

Virginia, que atualmente apresenta o programa “Sabadou com Virginia” no SBT, manteve suas postagens em tom leve nas redes, sem comentários sobre o caso. Internamente, segundo fontes próximas, a equipe jurídica da marca analisa estratégias para reverter a decisão e apresentar defesa formal.

Precedente no mercado digital

A decisão goiana é vista por especialistas em direito do consumidor como marco regulatório para o comércio por influência, setor que movimenta bilhões de reais e ainda carece de fiscalização específica. O Ministério da Justiça já estuda novas diretrizes para o chamado live commerce, modelo de vendas em tempo real que cresce de forma acelerada no país.

Para o promotor Fabrício Vieira de Lima, autor da ação, “as práticas apuradas ultrapassam a informalidade digital e configuram descumprimento reiterado das normas de proteção ao consumidor”. O MPGO pede também indenização por dano moral coletivo de R$ 5 milhões, valor que seria destinado ao Fundo Estadual de Defesa do Consumidor.

O embate que redefine a influência digital

A “queda de braço” entre o MP e Virginia Fonseca vai além da Justiça. O caso expõe o limite entre influência e responsabilidade legal — um ponto cego no mercado digital brasileiro.

Para o público, Virginia representa carisma e poder de persuasão. Para o Ministério Público, representa o novo desafio da fiscalização de consumo: a celebridade que vende, lucra e influencia milhões sem garantir o cumprimento das obrigações empresariais.

Se confirmadas as acusações, o processo poderá se tornar precedente jurídico para responsabilizar diretamente influenciadores que associam sua imagem a marcas acusadas de violar direitos do consumidor.

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