“Com 12% do gasto militar, o mundo acabaria com a fome” — discurso marca agenda internacional de Lula em Roma
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a semana de cúpulas em Roma com uma declaração que marcou o tom de sua política externa:
“Com 12% do que se gasta em armas, o mundo acabaria com a fome.”
A frase foi dita durante a cerimônia de abertura do World Food Forum 2025, promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) entre 10 e 17 de outubro, na capital italiana. O evento discutiu segurança alimentar, transição energética e estratégias de cooperação global.
O discurso de Lula foi transmitido ao vivo pela FAO e destacou o papel do Brasil como articulador da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante o G20 de 2024. A iniciativa busca reunir governos, bancos multilaterais e organismos internacionais em torno de políticas conjuntas de combate à fome e redução das desigualdades.
A FAO como eixo da diplomacia verde brasileira
Durante o fórum, Lula defendeu a criação de fundos globais de financiamento verde, integrando políticas de combate à fome, recuperação ambiental e agricultura de baixo carbono. Em reunião bilateral com o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, o presidente brasileiro propôs que o Brasil amplie sua cooperação técnica com países africanos e latino-americanos em tecnologias de irrigação e manejo sustentável.
Segundo a Agência Gov, Lula também participou da reunião do Board of Champions, grupo que acompanha o cumprimento das metas de segurança alimentar entre os países-membros da FAO.
A organização reforçou que mais de 673 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar crônica no mundo, e que os conflitos armados permanecem como uma das principais causas da fome.
Audiência com o Papa Leão XIV
No Vaticano, Lula foi recebido pelo Papa Leão XIV no dia 13 de outubro. O encontro, de caráter reservado, tratou de temas como desigualdade social, meio ambiente e o papel das religiões na promoção da paz.
De acordo com o Governo Federal, Lula renovou o convite para que o pontífice visite o Brasil em 2026. O Vaticano informou que o Papa não deve participar da COP30, em Belém, devido aos compromissos do Jubileu, mas confirmou o envio de uma delegação oficial ao evento.
A visita de Lula ao Vaticano foi lida como um gesto simbólico de aproximação entre a diplomacia brasileira e a doutrina social da Igreja Católica, num contexto em que o país busca retomar influência moral no cenário global.
O contexto internacional e os desafios internos
O discurso de Lula ocorre em um cenário de aumento dos gastos militares e de tensões em diferentes regiões do mundo. Ao propor redirecionar parte desse orçamento para políticas sociais, o presidente tenta reposicionar o Brasil como mediador entre o Norte e o Sul globais.
No plano interno, a retórica enfrenta limitações concretas. Dados da Rede Penssan indicam que 20,6 milhões de brasileiros ainda vivem em situação de fome grave. Especialistas alertam que o impacto diplomático do discurso só será sustentável se o governo apresentar avanços consistentes no combate à desigualdade dentro do país.
Mesmo assim, analistas de política externa da Universidade de Brasília (UnB) e do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) avaliam que a missão italiana fortalece a imagem do Brasil como liderança regional e país-chave para a agenda de transição ecológica.
A redução de 30% no desmatamento da Amazônia, confirmada pelo Ministério do Meio Ambiente, e o avanço da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza consolidam, segundo diplomatas, a credibilidade do país na preparação para a COP30, que será realizada em novembro, em Belém.
Análise: o discurso e a estratégia
A mensagem central de Lula – fome, paz e meio ambiente como dimensões inseparáveis – segue a tradição de diplomacia humanista do Brasil. Ao falar em Roma, o presidente deslocou o eixo do debate internacional da segurança militar para a segurança alimentar, apostando na força moral e no simbolismo religioso da cidade que abriga a FAO e o Vaticano.
Especialistas em geopolítica veem na fala de Lula uma estratégia de soft power: um país que, mesmo fora do eixo econômico dominante, se coloca como voz de consenso e ponte entre hemisférios. O risco, segundo analistas, é a dificuldade de converter narrativa em entregas concretas. Sem políticas domésticas visíveis, o discurso de Roma pode ser lembrado como retórico, e não histórico.