Alerta nacional: o perigo silencioso do metanol preocupa autoridades de saúde

Alerta nacional: o perigo silencioso do metanol preocupa autoridades de saúde
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 18 de outubro de 2025 6

O Brasil vive um alerta nacional de saúde pública diante do aumento de casos de intoxicação por metanol, um álcool altamente tóxico usado em combustíveis, solventes e produtos de limpeza.
O perigo é silencioso e cresce nas periferias urbanas e cidades do interior, onde o consumo de bebidas adulteradas e o uso doméstico incorreto de produtos químicos têm levado dezenas de pessoas aos hospitais.

Segundo boletim do Ministério da Saúde, 41 casos confirmados de intoxicação por metanol foram registrados apenas entre agosto e outubro de 2025, em cinco estados — São Paulo, Goiás, Ceará, Pernambuco e Pará. O número é o maior desde 2018, quando surtos semelhantes ocorreram em cidades do Nordeste.
Entre as vítimas, 11 morreram e 17 ficaram com sequelas neurológicas graves, como cegueira irreversível e insuficiência renal aguda.

Como o metanol age no corpo

O metanol é uma substância volátil, incolor e de odor suave, sem diferença perceptível do etanol, o álcool usado em bebidas.
A diferença está na toxicidade: quando metabolizado, o metanol se converte em formaldeído e ácido fórmico, compostos que causam lesões no nervo óptico, sistema nervoso central e fígado.
De acordo com o toxicologista Francisco Brito, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, “duas colheres de metanol são suficientes para causar cegueira permanente e menos de 30 mililitros podem ser letais”.

O antídoto padrão — fomepizol — é escasso no Brasil. A Anvisa admitiu, em nota técnica, que está negociando a importação emergencial do medicamento junto a laboratórios dos Estados Unidos e da União Europeia.
Enquanto isso, hospitais têm utilizado etanol medicinal como tratamento alternativo, pois ele compete com o metanol nas enzimas hepáticas e reduz a produção de ácido fórmico.

Casos recentes e a reação das autoridades

O primeiro alerta veio de Goiás, em setembro, quando sete pessoas foram hospitalizadas após consumir cachaça artesanal em uma festa em Anápolis.
Análises do Instituto de Criminalística da Polícia Civil confirmaram a presença de metanol em concentrações até 50 vezes acima do limite permitido.
Casos semelhantes foram detectados no interior de Pernambuco, onde três homens morreram após ingerir uma bebida caseira vendida como “aguardente pura”.

A Anvisa e o Ministério da Justiça ampliaram a fiscalização sobre a produção e comercialização de bebidas alcoólicas.
O governo federal prepara uma nova nota técnica conjunta com orientações aos estados e municípios para rastrear lotes de bebidas clandestinas e monitorar a origem das embalagens falsificadas.

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) também entrou na operação, com foco em plataformas digitais e marketplaces.
Em nota, o órgão afirmou que vai notificar as empresas que hospedam anúncios de bebidas sem registro sanitário e pediu apoio da Polícia Federal para investigar a cadeia de distribuição.

O que dizem os hospitais

Hospitais de referência em toxicologia relatam aumento expressivo nas notificações.
No Hospital das Clínicas de São Paulo, o número de internações por intoxicação alcoólica subiu 46% em relação a 2024, e pelo menos 14 casos tiveram confirmação laboratorial de metanol.
Segundo o médico Henrique Valério, chefe da unidade de toxicologia, “a maioria das vítimas acreditava estar consumindo cachaça artesanal. O metanol é praticamente impossível de identificar pelo gosto ou cheiro”.

O mesmo padrão se repete em Fortaleza e Belém, onde pacientes relataram sintomas semelhantes: náusea, visão turva, tontura e falta de coordenação motora poucas horas após a ingestão.
Em estados com menor estrutura laboratorial, o diagnóstico é difícil, e muitas mortes são registradas como “intoxicação etílica genérica”.

Medidas de prevenção e orientação da Anvisa

Em 15 de outubro, a Anvisa publicou um alerta sanitário nacional com recomendações para fabricantes e consumidores.
O órgão determinou que bebidas alcoólicas só podem ser produzidas com etanol de origem agrícola (etanol anidro) e devem apresentar registro sanitário ativo, selo fiscal e lote rastreável.
A agência também anunciou a criação de um sistema integrado de notificações, em parceria com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), para agilizar o rastreamento de casos suspeitos.

“O problema do metanol é global, mas o Brasil precisa combater o comércio informal e o consumo de bebidas adulteradas”, afirmou a diretora da Anvisa, Meiruze Freitas, ao Canal Gov.

Além das ações de vigilância, a Anvisa lançou uma campanha nacional intitulada “Olho no Selo”, que orienta consumidores a verificar a autenticidade das garrafas e denunciar produtos suspeitos pelo aplicativo Vigilância Cidadã.

Impacto e lições para a saúde pública

Os casos de metanol expõem falhas na fiscalização do setor de bebidas artesanais e a ausência de rastreabilidade em produtos vendidos fora de circuito formal.
Segundo dados da Fiocruz, o consumo de bebidas falsificadas é responsável por 1 em cada 10 internações por intoxicação alcoólica no país.
O problema se agrava em períodos de crise econômica, quando o aumento de preços do álcool regular impulsiona a compra de produtos irregulares.

Para a médica infectologista Carla Paim, do Hospital Universitário de Brasília, “o metanol não é um problema isolado, mas um sintoma da informalidade que ainda domina parte do mercado brasileiro de bebidas e combustíveis”.
Ela alerta que a solução exige educação sanitária, campanhas públicas e ação conjunta entre governo, indústria e consumidores.

O que observar a seguir

Nos próximos meses, a Anvisa deve publicar um mapa de risco nacional com os municípios mais afetados por intoxicação.
A expectativa é de que os resultados sirvam de base para políticas de fiscalização permanente e acordos com produtores artesanais.
Enquanto isso, autoridades de saúde recomendam evitar bebidas sem rótulo, de procedência duvidosa ou vendidas por ambulantes, e procurar atendimento médico imediato em caso de sintomas como visão turva, enjoo, fraqueza ou confusão mental.

Notícias relacionadas