ACIPA em debate: o futuro da principal entidade empresarial de Palmas

ACIPA em debate: o futuro da principal entidade empresarial de Palmas
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 18 de outubro de 2025 9

A Associação Comercial e Industrial de Palmas (ACIPA) completa quase três décadas de história como uma das instituições mais influentes do Tocantins. Criada em 1995 para representar o empresariado da capital, a entidade atravessa agora uma fase de reorganização interna e reposicionamento político, em meio a um cenário em que o setor produtivo cobra maior representatividade e resultados concretos.

Sob a presidência do empresário Joseph Madeira, a ACIPA tenta reconstruir a confiança do empresariado e modernizar suas práticas institucionais, sem romper com o legado de pioneirismo que consolidou o associativismo local nas últimas três décadas.

Reestruturação e diálogo com o poder público

Desde 2023, Madeira tem adotado uma estratégia de aproximação com o governo estadual, a Prefeitura de Palmas e entidades parceiras, como o Sebrae Tocantins e a Federação das Indústrias do Estado (Fieto).
A ACIPA voltou a ocupar espaço em pautas estruturais como desburocratização tributária, linhas de crédito e capacitação empresarial, além de liderar o Fórum de Desenvolvimento Econômico de Palmas, realizado em parceria com o Banco da Amazônia e o BRB.

O papel da ACIPA é defender o ambiente de negócios, não o governo. Mas diálogo não é submissão, é estratégia”, afirmou Joseph Madeira ao Diário Tocantinense, ao defender a importância de convergência entre o poder público e o setor produtivo.

Segundo dados do Sebrae, 93% das empresas registradas em Palmas são micro ou pequenas.
A ACIPA vem apostando em formação empreendedora e digitalização: programas como o Empreender Palmas e o Capacita ACIPA Digital atenderam mais de 2,8 mil empresários em 2024, com foco em gestão, inovação e finanças.

Modernização institucional e novos quadros

Internamente, a associação passa por um processo de revisão administrativa e tecnológica.
Entre 2023 e 2025, a diretoria implantou o Portal do Associado, com prestação de contas em tempo real, e lançou um sistema digital de filiação e acompanhamento de projetos.
O resultado foi o aumento de 22% no número de associados ativos, alcançando cerca de 1,4 mil empresas filiadas — o maior número desde 2018.

Apesar do crescimento, parte dos empresários cobra maior participação dos conselhos setoriais e mais descentralização das decisões. Em resposta, Madeira anunciou a criação de um Conselho Consultivo de Jovens Empreendedores, previsto para 2026, com o objetivo de renovar a base dirigente da entidade.

Os desafios do setor produtivo tocantinense

O Tocantins registrou crescimento de 3,4% do PIB em 2024, acima da média nacional, segundo o IBGE.
Mesmo assim, o empresariado local ainda enfrenta entraves logísticos, carga tributária alta e baixa diversificação produtiva.
Para o economista Francisco Noleto, da Universidade Federal do Tocantins, o desafio da ACIPA é “liderar um processo de competitividade que una inovação, crédito acessível e redução de burocracia”.
“O associativismo empresarial no Tocantins amadureceu, mas a ACIPA precisa equilibrar o discurso político com entrega técnica”, afirma.

A entidade também busca fortalecer sua atuação fora da capital, apoiando a criação de núcleos empresariais regionais.
O projeto Rede Tocantins de Negócios, desenvolvido em parceria com o Sebrae e com a Fieto, pretende integrar empreendedores de Gurupi, Paraíso e Porto Nacional em uma agenda comum de capacitação e inovação.


Relação política e o futuro da presidência

Nos bastidores, o nome de Joseph Madeira surge como favorito à reeleição para o comando da ACIPA.
O estatuto permite recondução, e aliados defendem que ele “conclua o ciclo de modernização iniciado em 2023”.
O empresário evita confirmar, mas sinaliza continuidade: “A missão não é pessoal, é institucional. A ACIPA precisa estar preparada para a próxima década”.

Fontes ligadas ao governo estadual destacam que Madeira teve papel importante na interlocução com o governador Wanderlei Barbosa, durante discussões sobre incentivos fiscais e logística empresarial.
Críticos, porém, avaliam que a aproximação excessiva com o Palácio Araguaia pode comprometer a independência da entidade.

“O equilíbrio é fundamental”, avalia o cientista político Leandro Nunes. “A ACIPA deve continuar mediando, não se alinhando. Se o diálogo virar dependência, perde-se a força institucional.”

O papel da ACIPA na economia de Palmas

A história da ACIPA se confunde com a da capital. Desde 1995, a entidade participa de debates estratégicos — da elaboração do Plano Diretor à criação dos Distritos Industriais Norte e Sul, além da articulação de linhas de crédito regionais.
A partir de 2020, passou a integrar a Frente Nacional de Entidades Empresariais, em Brasília, representando o Tocantins em pautas como reforma tributária, incentivos à exportação e comércio digital.

Em entrevista à Gazeta do Cerrado, o ex-presidente da Faciet Rogério Ramos destacou que “o associativismo empresarial precisa se adaptar à nova economia, ser menos reativo e mais propositivo”.
A fala de Ramos sintetiza o momento da ACIPA: manter relevância exige inovação, articulação e independência.

 

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