Gaza em colapso: disputas internas e ofensivas de Israel aprofundam o caos político

Gaza em colapso: disputas internas e ofensivas de Israel aprofundam o caos político
Civis em Gaza após novo ciclo de confrontos entre milícias palestinas e ataques israelenses. Crédito: Reuters.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 18 de outubro de 2025 5

A Faixa de Gaza mergulhou em uma das fases mais caóticas desde o início da guerra de 2023. Em meio à devastação provocada pelos ataques israelenses, disputas internas entre grupos palestinos — incluindo facções do próprio Hamas, clãs armados e movimentos rivais como o Jihad Islâmico e o PFLP — reacenderam a violência dentro do território sitiado.
Relatórios internacionais descrevem execuções públicas, confrontos armados e retaliações políticas que se somam à destruição causada por Israel, aprofundando o colapso institucional.

Segundo a Reuters, pelo menos quatro grandes clãs armados desafiam atualmente o controle do Hamas em Gaza. As milícias locais exploram o vácuo deixado por meses de bombardeios israelenses e pela ausência de governança estável.
Esses grupos — como o Doghmush Clan e o Popular Forces — atuam em bairros de Gaza City, Beit Lahia e Khan Younis, controlando checkpoints, rotas de ajuda e depósitos de alimentos. O resultado é uma guerra fragmentada, na qual nenhum grupo detém autoridade plena.

Em resposta, combatentes do Hamas lançaram uma ofensiva de contenção contra rivais, prendendo e executando opositores acusados de saques, espionagem e “colaboração com Israel”. Fontes independentes e vídeos verificados pela BBC mostram homens armados em fardas do Hamas conduzindo execuções públicas em Gaza City.
O grupo alega que tenta restaurar a ordem após meses de anarquia e ataques de gangues locais, mas organizações de direitos humanos denunciam execuções extrajudiciais.

A violência interna ocorre enquanto Israel mantém bloqueios e ataques pontuais em áreas residenciais e centros logísticos sob pretexto de “operações antiterrorismo”.
De acordo com a ONU, mais de 36 mil palestinos foram mortos desde 2023, e 80% da população enfrenta fome extrema ou deslocamento forçado. O OCHA relata que dois terços das infraestruturas civis de Gaza estão destruídas, dificultando a reconstrução e favorecendo o avanço das milícias locais.

Em declarações recentes à Reuters, o porta-voz político do Hamas, Mohammed Nazzal, afirmou que o movimento não pretende se desarmar, pois teme que o vazio de segurança seja explorado por Israel e por grupos rivais.
“O Hamas não se retirará da defesa interna enquanto Gaza estiver sob cerco”, disse Nazzal.
O discurso reflete um impasse: se o grupo entregar as armas, arrisca perder controle; se mantiver, atrasa o processo de reconstrução internacional.

Os Estados Unidos e a União Europeia condenaram as execuções e pediram investigações independentes sobre violações de direitos humanos em Gaza. O Departamento de Estado norte-americano classificou as ações do Hamas como “inaceitáveis”, mas também criticou o prolongamento do bloqueio israelense, afirmando que “a crise humanitária resulta de múltiplos fatores de violência prolongada”.
A ONU considera que a ausência de um plano de transição civil pode transformar Gaza em território ingovernável até 2026.

A Autoridade Palestina, sediada em Ramallah, tenta se reposicionar como possível mediadora, defendendo um “governo técnico de reconstrução” supervisionado por países árabes aliados. No entanto, segundo o The Guardian, o Hamas rejeita qualquer tentativa de “ocupação política disfarçada”.
Os clãs armados, por sua vez, veem a proposta como ameaça a sua autonomia local, transformando Gaza em um mosaico de forças concorrentes.

No plano humanitário, a UNRWA alerta para risco de colapso total da rede de abrigos e hospitais. As rotas de ajuda — especialmente em Rafah — são controladas por milícias rivais que cobram pedágio ou desviam insumos, prática relatada também por organizações palestinas independentes.
Em campo, civis continuam soterrados entre os escombros de uma disputa que combina guerra externa e fragmentação interna.

Três leituras possíveis do cenário atual

  1. Militar: Israel mantém ofensivas cirúrgicas e bombardeios seletivos, justificando que “previnem o rearmamento” — mas que, na prática, agravam o caos.

  2. Política: o Hamas tenta garantir sobrevida e deter avanço de rivais locais, mas sua repressão interna mina legitimidade internacional.

  3. Humanitária: a população palestina é vítima simultânea de três forças — o bloqueio israelense, a repressão interna e a ausência de instituições civis.

A cada novo ciclo de violência, a governança de Gaza se distancia de qualquer modelo funcional.
Sem uma estrutura internacional neutra e sem garantia de cessar-fogo real, a Faixa de Gaza permanece em estado de colapso político e moral, com o povo palestino como maior perdedor.

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