Com facão na mão, ministro chavista desafia os EUA em rede nacional; Maduro mobiliza tropas e tensiona a América Latina
A Venezuela voltou ao centro das atenções internacionais depois que o ministro do Interior e número dois do chavismo, Diosdado Cabello, apareceu com um facão na mão em rede nacional, prometendo “defender a pátria a qualquer custo”.
O gesto, transmitido pela TV estatal durante a juramentação da Milícia Camponesa em Carayaca (La Guaira), foi acompanhado de novas declarações do ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, e reforçou o discurso de confronto do governo Nicolás Maduro diante das recentes ações militares dos Estados Unidos no Caribe.
O gesto e o contexto
Durante a cerimônia, Cabello levantou o facão e declarou:
“Quem pisar em solo venezuelano vai encontrar um camponês com um facão em cada esquina.”
O vídeo viralizou nas redes e foi reproduzido em jornais de toda a região, como Noticias RCN e Ñandutí.
O ato ocorreu dias depois de ataques norte-americanos contra embarcações venezuelanas acusadas de narcotráfico, que deixaram ao menos 27 mortos, segundo levantamento da Reuters.
Em resposta, Maduro determinou exercícios militares de prontidão e ampliou o número de milicianos em zonas rurais. “A pátria será defendida com ferro, com sangue e com amor”, declarou o presidente em cadeia nacional, transmitida pela TeleSUR.
A retórica do facão
O facão, símbolo tradicional do trabalhador rural, tornou-se metáfora de resistência popular. Segundo o cientista político Luis Vicente León, ouvido pela El Universal, o gesto buscou “reforçar a narrativa de guerra permanente” e mobilizar a base chavista em meio às sanções econômicas impostas por Washington.
A Reuters informou que Caracas levou o caso ao Conselho de Segurança da ONU, acusando os EUA de “violar a soberania venezuelana” e pedindo que os ataques no Caribe sejam reconhecidos como ilegais sob a Carta das Nações Unidas.
Reação militar e ameaça regional
O ministro da Defesa, Padrino López, afirmou em pronunciamento posterior que a Venezuela enfrenta uma “guerra não declarada” e anunciou operações conjuntas da FANB (Força Armada Nacional Bolivariana) com a Milícia Popular. Ele citou o plano “Independência 200”, que prevê mobilização de até 2,5 milhões de militares e civis armados.
Trechos da fala foram reproduzidos pela CNN en Español, com imagens de treinamento em Caracas e nas fronteiras com a Colômbia e o Brasil.
A tensão cresce também no plano diplomático: governos da região, como o Brasil e a Colômbia, acompanham o aumento da presença de navios e aviões norte-americanos no Caribe, relatado em despacho da Reuters.
O que vem pela frente
Especialistas em relações internacionais consultados pelo Diário Tocantinense avaliam que o episódio marca uma nova fase de confrontação simbólica entre Caracas e Washington.
Para o analista Pedro Nikken, ex-membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, “a Venezuela aposta na retórica da soberania como instrumento de coesão interna, mas arrisca um isolamento ainda maior”.
Enquanto isso, os EUA mantêm silêncio diplomático sobre o gesto, mas reforçaram operações de patrulha sob o comando do Comando Sul, segundo o Departamento de Defesa norte-americano.
O “facão de Cabello” virou mais que um gesto: transformou-se em símbolo da guerra psicológica latino-americana.
Com a Venezuela levando o caso à ONU, o Pentágono ampliando presença no Caribe e a região mergulhada em incerteza política, a fronteira entre discurso e provocação se torna cada vez mais tênue — e qualquer faísca pode redefinir o equilíbrio geopolítico do continente.