Congresso articula investigação de contratos milionários e atrasos em entregas

Congresso articula investigação de contratos milionários e atrasos em entregas
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 20 de outubro de 2025 10

Deputados e senadores articulam a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar irregularidades na gestão dos Correios, após denúncias de contratos milionários sob suspeita e atrasos nas entregas postais. A proposta ocorre em meio a uma crise financeira que colocou a estatal sob escrutínio público.

Segundo reportagem da CNN Brasil, a oposição já recolheu mais de 120 das 171 assinaturas necessárias para protocolar o pedido de CPI na Câmara. No Senado, a Comissão de Transparência e Controle (CTFC) aprovou uma auditoria especial, com apoio técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), para investigar os contratos e a execução orçamentária da empresa.

Crise financeira e denúncias operacionais

Em 2024, os Correios registraram prejuízo de R$ 2,6 bilhões, o maior em uma década, segundo o R7 Notícias. A estatal também enfrenta atrasos no repasse de R$ 42 milhões ao fundo de pensão Postalis, além de R$ 95 milhões devidos ao plano de previdência BD, conforme revelou o Poder360.

O senador Márcio Bittar (União-AC) — autor do requerimento da CPI — afirma que “a suspensão da Lei das Estatais permitiu o retorno de indicações políticas e favorecimentos”. Segundo ele, a gestão teria “comprometido a credibilidade e a eficiência de um serviço essencial para a economia brasileira”.

Paralelamente, terceirizados que operam no transporte e na triagem de encomendas denunciam falta de pagamento e paralisação de serviços, o que impacta diretamente a entrega de correspondências em regiões rurais e no comércio eletrônico.

Contratos sob suspeita e gastos milionários

Entre os pontos de investigação, a CPMI deve examinar contratos de logística, publicidade e diárias internacionaisfirmados pela estatal. Segundo o Diário do Poder, os Correios autorizaram gastos milionários com viagens ao exterior, mesmo diante do prejuízo recorde.

Auditores do TCU devem avaliar ainda a legalidade de licitações para serviços de transporte, manutenção de agências e fornecimento de etiquetas postais — áreas que concentram os maiores contratos da empresa.
Uma apuração interna publicada pelo Diário Tocantinense aponta que os atrasos nos pagamentos a fornecedores atingem centenas de microempresas regionais, especialmente no Centro-Oeste.

Aparelhamento político e disputa no Congresso

A CPI também busca esclarecer se houve uso político da estrutura da estatal. Deputados da oposição alegam que cargos estratégicos nos Correios foram distribuídos a aliados partidários após a flexibilização da Lei das Estatais.

A deputada Caroline De Toni (PL-SC) defendeu que “o Congresso precisa garantir transparência em uma empresa que lida com bilhões de reais e serviços essenciais”. A base governista, por outro lado, classifica a CPI como tentativa de desgaste político.

A direção dos Correios informou, em nota, que a empresa “mantém auditorias internas permanentes” e que as denúncias “não procedem”. Disse ainda que, apesar das dificuldades financeiras, a estatal segue executando investimentos em automação e digitalização de processos, conforme planos estratégicos divulgados pelo Diário Tocantinense.

Impactos e próximos passos

A crise da ECT afeta diretamente usuários e pequenos empreendedores, que enfrentam aumento de custos logísticos e falhas na entrega de produtos. Para o economista Fernando Scaff, ouvido pela CNN Brasil, “a má gestão das estatais repercute não apenas no déficit fiscal, mas na confiança do consumidor e na eficiência logística nacional”.

A mini-CPI do Senado já encaminhou oito ofícios a diferentes órgãos de controle para coleta de documentos e deve convocar dirigentes da empresa e ex-presidentes para depor nas próximas semanas. Caso a CPMI seja instalada formalmente, as investigações poderão avançar sobre contratos, governança e eventual responsabilidade criminal de gestores.

A iniciativa do Congresso representa uma tentativa de recuperar a transparência e a eficiência de uma das empresas públicas mais antigas do país. A investigação dos Correios pode se tornar um dos principais embates políticos de 2025, ao revelar se a estatal está apenas em crise administrativa ou se foi palco de gestão temerária e uso político de recursos públicos.

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