Terceiro pedido de impeachment contra o governador Wanderlei Barbosa provoca turbulência e acusações explosivas
O advogado Paulo Roberto da Silva protocolou nesta quinta-feira (16) o terceiro pedido de impeachment contra o governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) na Assembleia Legislativa do Tocantins (Aleto). O documento, de mais de 100 páginas, acusa o chefe do Executivo de liderar um esquema de desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro dentro do governo estadual, com base em investigações da Polícia Federal e decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A petição aponta que as provas estão nos inquéritos 1.663/DF, 1.650/DF e 1.664/DF, todos supervisionados pelo STJ, que revelariam o funcionamento de uma organização criminosa com atuação dentro da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (SETAS). Segundo o documento, as empresas contratadas pela pasta — Sabores Regionais, Delikato, Mercado das Carnes e Médio Norte Atacadista — receberam R$ 6,6 milhões durante a pandemia para fornecer frangos e cestas básicas, mas parte dos produtos nunca chegou à população.
Frangos de ouro e contratos sob suspeita
A investigação da Polícia Federal revelou que as empresas entregavam aves até 70% mais leves que o contratado. O prejuízo estimado ao erário é de R$ 839 mil — e, segundo o advogado, parte do dinheiro teria sido repassada diretamente ao governador em espécie.
No relatório anexado ao pedido, a PF aponta que R$ 550 mil foram entregues à empresária Adriana Rodrigues Santos, identificada como sócia oculta de uma das empresas, e R$ 5 mil foram transferidos ao governador com a descrição “consórcio entre amigos”. Há ainda registro de depósitos feitos por um servidor com salário de R$ 3,4 mil, mas que teria movimentado mais de R$ 10 mil em dinheiro vivo na conta de Wanderlei Barbosa — indício, segundo os investigadores, de lavagem de dinheiro e uso de laranjas.
A pousada milionária e a sombra da família
A parte mais polêmica do pedido envolve o suposto uso da Pousada Pedra Canga, localizada em Taquaruçu, como fachada para lavagem de recursos desviados. O empreendimento, avaliado em R$ 6,3 milhões, foi construído em nome do filho do governador, Rerison Leite, mas a PF afirma que o verdadeiro proprietário seria Wanderlei Barbosa.
O laudo 384/2025 da Polícia Federal concluiu que as obras começaram em 2021, no mesmo período em que os contratos fraudulentos da SETAS estavam em execução. Além disso, há uma diferença de R$ 4 milhões entre o custo real da pousada e o valor oficialmente declarado — diferença que, segundo o documento, “só pode ser explicada por aportes em espécie”.
Decisão do STJ e afastamento inédito
O pedido cita a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que determinou o afastamento cautelar de Wanderlei Barbosa em setembro de 2025, após reconhecer indícios de peculato, corrupção passiva e obstrução de justiça. O ministro relator destacou o risco de continuidade dos crimes e a “ousadia das condutas”, afirmando que a organização criminosa “continuava atuando mesmo sob investigação”.
A decisão inédita do STJ reforçou o argumento do advogado Paulo Roberto de que a permanência de Barbosa no cargo ameaça a integridade das investigações e o erário público. O pedido entregue à Aleto pede que a Casa requisite cópias dos inquéritos, convoque peritos da PF e determine perícia contábil independente nas finanças da pousada e nos contratos da SETAS.
Bastidores: renúncia, sucessão e medo
Nos bastidores, o caso provoca pânico político. A base governista tenta conter danos, enquanto a oposição aposta no desgaste do governo em pleno ano pré-eleitoral. Fontes ouvidas pelo Cleber Toledo afirmam que aliados próximos cogitam uma renúncia estratégica do governador para evitar inelegibilidade até 2034 — manobra que só seria possível se o processo não for admitido pela Mesa Diretora.
O clima na Assembleia Legislativa é de impasse. Deputados da oposição, liderados por Júnior Geo (PSDB) e Amália Santana (PT), articulam apoio ao pedido, enquanto o presidente da Casa, Amélio Cayres (Republicanos), evita comentar.
E agora?
Se o pedido for aceito, a Aleto deve instalar uma comissão especial com prazo de 30 dias para emitir parecer. O governador terá dez dias para defesa, e o julgamento final poderá resultar em cassação de mandato e inelegibilidade por oito anos.
O advogado Paulo Roberto — que diz “agir em defesa da moralidade pública” — afirmou ao Diário Tocantinense que o objetivo é “mostrar à sociedade que a corrupção institucionalizada não é normal, nem inevitável”.
Tentamos contato com a assessoria do governador, mas não houve resposta até o fechamento da matéria. Em nota anterior, o governo negou irregularidades e afirmou que “as investigações correm sob sigilo e serão respondidas no devido processo legal”.