Tragédia no Ninho do Urubu: Justiça absolve sete réus; MP anuncia recurso e famílias falam em impunidade
A decisão da 36ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, proferida ontem, absolveu sete dos réus acusados pelo incêndio que, em 8 de fevereiro de 2019, matou dez jovens atletas no centro de treinamento do Flamengo. O veredicto suscita questionamentos sobre responsabilização coletiva, falhas institucionais e lacunas de fiscalização que persistem no futebol de base brasileiro.
O processo, iniciado em 2021, chegou ao julgamento após mais de três anos de investigação e mais de 40 testemunhas ouvidas. A acusação atribuía aos dirigentes e técnicos responsabilidades por incêndio culposo qualificado e lesão corporal culposa. No entanto, o juiz que decidiu considerou que não restou comprovado nexo causal individualizado entre a conduta de cada acusado e o resultado trágico, o que conduziu à absolvição. A defesa argumentou que as responsabilidades estavam distribuídas entre diferentes níveis e prestadores de serviço — fato que a acusação reconhecia, mas que o magistrado entendeu gerar dúvida razoável.
Entre os absolvidos figuram diretores, engenheiros e prestadores de serviços que atuavam no treinamento de base do clube. O ex-presidente já havia sido excluído do processo por prescrição. Apesar da absolvição, o Ministério Público Estadual anunciou recurso, abrindo caminho para reanálise em segunda instância. Paralelamente, no âmbito cível, o clube firmou diversos acordos com as famílias das vítimas, mas a discussão sobre eventual dano coletivo e revisão regulatória ainda está pendente.l
As famílias das dez vítimas — adolescentes entre 14 e 16 anos — divulgaram nota de repúdio à sentença, classificando-a como “uma ferida na justiça” e afirmando que a decisão representa uma lacuna no mecanismo de proteção de jovens atletas. Entidades de defesa da segurança desportiva alertam que a absolvição pode servir de precedente para que falhas graves de infraestrutura permaneçam sem responsabilização. O episódio lança luz sobre as condições dos centros de treinamento de base no país: alojamentos improvisados, terceirização da manutenção, ausência de fiscalização preventiva e licenciamento irregular.
O incêndio no Ninho do Urubu se tornou símbolo de como a formação esportiva de alto rendimento pode conviver com riscos evitáveis. A absolvição dos réus não encerra a discussão — ao contrário, reabre o debate sobre governança nos clubes, papel da fiscalização pública, transparência dos contratos de manutenção e a necessidade de protocolos robustos de segurança. A memória dos atletas não se esgota. A verdade é que o esporte de base no Brasil continua sendo uma arena onde vidas, sonhos e negligência se cruzam — e onde a responsabilização ainda parece distante.