Ozempic e Mounjaro: o que diz a Anvisa e especialistas sobre quem pode aplicar os medicamentos no Brasil e qual o melhor?

Ozempic e Mounjaro: o que diz a Anvisa e especialistas sobre quem pode aplicar os medicamentos no Brasil e qual o melhor?
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 27 de outubro de 2025 29

O uso dos medicamentos Ozempic e Mounjaro — conhecidos como agonistas do receptor de GLP-1 — ultrapassou o tratamento do diabetes e se tornou uma febre entre quem busca emagrecimento rápido. Essa popularização trouxe novas dúvidas sobre quem pode aplicar, quais são os riscos, o que diz a Anvisa e como a lei regula o uso desses medicamentos.

De acordo com nota oficial da Anvisa, o Mounjaro (tirzepatida) foi aprovado no Brasil em 2023 exclusivamente para o tratamento do diabetes tipo 2, mesma indicação original do Ozempic (semaglutida). Ambos agem estimulando a produção de insulina e controlando o apetite, mas o uso para emagrecimento em pessoas sem diabetes é considerado off-label, ou seja, fora da bula e sem aprovação regulatória específica.


Crescimento do uso fora de bula e o alerta da Anvisa

O sucesso nas redes sociais e o apelo estético fizeram o consumo disparar. Em abril de 2025, a Anvisa passou a exigir retenção da receita médica para venda de canetas de Ozempic, Wegovy e Mounjaro. As receitas agora têm validade de 90 dias e precisam ser apresentadas em duas vias, registradas no sistema de controle de medicamentos (SNGPC).

A medida veio após o aumento da automedicação e da venda de produtos falsificados, inclusive em clínicas estéticas. Em agosto, a agência também proibiu a manipulação de semaglutida, princípio ativo do Ozempic, após constatar lotes falsificados e sem controle de qualidade, conforme reportagem da Agência Brasil.

Em setembro, a CNN Brasil revelou a apreensão de versões adulteradas de Mounjaro, reforçando o alerta sobre o risco do mercado paralelo.

Quem pode prescrever e aplicar

No Brasil, a prescrição e aplicação desses medicamentos são atribuições exclusivas de profissionais médicosdevidamente habilitados, segundo a legislação sanitária e o Conselho Federal de Medicina (CFM). A Anvisareforça que a aplicação deve ocorrer apenas sob supervisão médica ou por equipe de enfermagem em ambiente clínico.

A atuação de dentistas no uso de agonistas de GLP-1 não possui respaldo legal. O Conselho Federal de Odontologia (CFO) e o Conselho Regional de Odontologia (CRO) limitam a prescrição a medicamentos de uso odontológico. O escritório jurídico Demarest Advogados explica que o uso desses fármacos em consultórios estéticos ou odontológicos, sem acompanhamento médico, pode configurar infração sanitária e exercício irregular da medicina.

Além disso, a própria Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, publicou orientação técnica na plataforma Academy Novo Nordisk esclarecendo que a prescrição requer acompanhamento médico contínuo, controle de dose e exames laboratoriais regulares.

Riscos e efeitos colaterais

Estudos clínicos apontam eficácia significativa no controle de peso e glicemia, mas também efeitos colaterais relevantes. Segundo a Wikipédia médica, os efeitos adversos mais comuns incluem náuseas, diarreia, constipação, dor abdominal e, em casos mais graves, pancreatite aguda e risco de hipoglicemia.

Endocrinologistas consultados pelo Diário Tocantinense afirmam que o uso sem avaliação médica pode gerar complicações sérias. “Esses medicamentos alteram o metabolismo, reduzem o apetite e afetam o sistema gastrointestinal. O uso incorreto pode causar perda de massa magra e desidratação severa”, explica a endocrinologista Dra. Mariana Vasques, do Hospital de Clínicas de São Paulo.

Desabastecimento e impacto sobre diabéticos

Com a popularização do uso para emagrecimento, o Brasil enfrenta escassez recorrente dos medicamentos, prejudicando pacientes com diabetes. Segundo a Agência Brasil, a própria Anvisa reconheceu o impacto no abastecimento e pediu prioridade na reposição para pacientes com prescrição de controle glicêmico.

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) alerta que o uso estético desvia estoques de quem depende do remédio para manter o controle da glicose, o que pode provocar aumento de internações e descompensações metabólicas.

Ozempic ou Mounjaro: qual é o melhor?

Os dois medicamentos têm mecanismos semelhantes, mas com diferenças relevantes. O Ozempic (semaglutida) é um agonista puro do GLP-1 e tem ação comprovada no controle da glicose. Já o Mounjaro (tirzepatida) age sobre dois receptores — GLP-1 e GIP —, o que resulta em maior perda de peso, segundo estudos analisados pela Exame.

Ainda assim, o “melhor” depende de cada paciente. Para quem tem diabetes tipo 2, ambos são eficazes. Para obesidade, o Mounjaro tende a mostrar resultados mais rápidos, mas só pode ser usado com prescrição médica e acompanhamento rigoroso.o

Ozempic e Mounjaro representam avanços na endocrinologia, mas o uso fora de contexto clínico e sem acompanhamento médico pode transformar a promessa de emagrecimento em risco real à saúde. A Anvisa endureceu as regras e lembra: não existe uso estético autorizado nem aplicação por profissionais não médicos.

Essas canetas não são cosméticos — são medicamentos potentes, de controle especial, que exigem prescrição, acompanhamento e responsabilidade profissional.

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