Colinas (TO): Câmara abre processo de impeachment contra prefeito Josemar Kasarin
Diretor do Diário Tocantinense solicitou em pedido apuração de possíveis irregularidades em pagamento de R$144 mil; caso acirra disputa política em cidade marcada por perseguições a jornalistas
Colinas do Tocantins — a 270 quilômetros de Palmas e a 220 quilômetros de Araguaína, com cerca de 35 mil habitantes e pouco mais de 25 mil eleitores, tornou-se o novo epicentro político do Estado. Na sessão de 27 de outubro de 2025, a Câmara Municipal aprovou, por 10 votos a 3, o recebimento de duas denúncias por infrações político-administrativas contra o prefeito Josemar Kasarin (PSD).
A sessão, que começou sob invocação bíblica e terminou com clima tenso, marcou o início de um processo de impeachment motivado por supostos pagamentos irregulares feitos ao chefe do Executivo — o valor de R$ 144.666,66, referente a férias e 13ºs salários retroativos de 2021 a 2024. Segundo os denunciantes, o pagamento seria ilegal por violar o princípio constitucional do subsídio em parcela única.
As denúncias foram apresentadas por dois cidadãos: o jornalista Ricardo Fernandes, diretor do Diário Tocantinense, e o agente de viagens Vitor Augusto Mariano. As peças foram apensadas por tratarem do mesmo objeto, incluindo também a locação de um imóvel para o Conselho Tutelar que, segundo a denúncia, teria sido pago sem uso.
“A Câmara tem o dever institucional de apurar atos que atentem contra a moralidade pública. O pagamento de verbas rescisórias a um mandato político é juridicamente impossível fiz apenas um pedido de informação e não estou julgando ninguém, quem abriu o processo foi a Câmara”, afirmou Ricardo Fernandes em nota.
“Infelizmente, há uma perseguição antiga a quem denuncia irregularidades em Colinas. Nosso trabalho é informar, com ética e coragem, mesmo sob risco pessoal e as pessoas não entendem isso4”, completou o jornalista, que pediu proteção policial após relatar ameaças.
Durante a sessão, o presidente da Câmara, vereador Augusto Agra, determinou o sorteio da Comissão Processante, formada pelos vereadores Edmilson Bolota (presidente), Ranieri Macaúba (membro) e Marcos Júnior Guimarães (relator). O prefeito terá prazo para apresentar defesa, conforme o Decreto-Lei nº 201/1967.
O vereador Jefferson Bandeira (PSD) contestou a competência da Câmara para julgar o caso, citando o artigo 1º do mesmo decreto, mas foi contraposto por colegas que destacaram o artigo 4º, que atribui à Câmara o julgamento político-administrativo. O debate se estendeu por mais de quatro horas e terminou sob aplausos e vaias de eleitores divididos.
Kasarin, reeleito em 2024 e aliado do bolsonarismo local, é apontado por opositores como beneficiário de “favores administrativos” e por apoiadores como “o melhor prefeito da história de Colinas”. Sua defesa alega que o pagamento foi “erro contábil sem dolo”, já corrigido, e que o prefeito “devolveu integralmente o valor” após recomendação jurídica.
Nos bastidores, a crise se soma a um histórico de intimidações e denúncias contra jornalistas e veículos independentes da cidade. O caso do Diário Tocantinense reacendeu o debate sobre liberdade de imprensa e segurança de comunicadores no interior do Tocantins.
A Associação de Veículos de Comunicação (Avecom) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) já pediram à Secretaria de Segurança Pública do Estado a adoção de medidas de proteção ao jornalista Ricardo Fernandes.
“A imprensa é um pilar democrático. Ameaçar jornalistas por exercerem sua função é atentar contra a própria democracia”, diz nota da Avecom.
Enquanto isso, Colinas — cidade estratégica no norte tocantinense e reduto eleitoral consolidado do PT, PSD e UB— se vê no centro de uma disputa que vai além do plenário. A oposição articula para acelerar a tramitação do processo, enquanto a base governista tenta mobilizar apoio popular para sustar o andamento.
O episódio marca uma virada no tabuleiro político tocantinense e acende alerta sobre o ambiente de polarização e perseguição política em municípios de médio porte.